Política & narrativas 3 – crédito x dinheiro

Seguindo na leitura do livro de Niall Ferguson, “A ascensão do dinheiro: a história financeira do mundo”, é impressionante pensar como uma mudança de mentalidade, baseada, sempre, numa narrativa, numa visão de mundo, pode estar na raiz do subdesenvolvimento da América Espanhola, quando comparada aos países de colonização inglesa.

De fato, Niall argumenta que a Espanha, justamente pela abundância de metais preciosos que encontrou por aqui, demorou muito para efetuar a passagem do sistema financeiro baseado em metal, para o sistema baseado no crédito.

Em consequência, se empobreceu, e empobreceu os territórios que conquistou.

Nesse post quero falar um pouco mais sobre isso.

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Existem muitas leituras sobre os motivos que levaram a América espanhola a se desenvolver menos do que a América inglesa. Em linhas gerais, muitos comentadores entendem que a colonização, a cultura dos colonizadores, deve ter algo a ver com isso. E é aí que se situa o argumento de Ferguson.

Para o autor, o desenvolvimento do sistema bancário (inicialmente com os judeus, como comentei aqui) acabou levando à uma mudança na própria concepção do dinheiro: inicialmente, igualado à posse de metais preciosos, como outro e prata, ele passou, paulatinamente, a se relacionar mais com o crédito.

Indicador dessa mudança (e dessa transição precária) é o fato de que a Espanha, mesmo tendo acesso privilegiado à uma imensa quantidade de metais preciosos, precisou pedir empréstimos 14 vezes ( ! ) ao longo dos séculos XVI e XVII (op. cit., pg 48).

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Se o dinheiro fosse igual à posse de metais preciosos, porque uma das nações com maior acesso à esses metais acabaria endividada? São vários os motivos.

Em primeiro lugar, a própria enxurrada de metais preciosos oriundos das Américas acabou por ter um efeito inflacionário, ou seja, diminuiu o valor associado ao metal, já que ele passou a estar muito mais disponível.

Em segundo lugar, não adianta muito você ter dinheiro, se você precisa gastá-lo inteiramente comprando bens do vizinho. Isto é, não tendo uma indústria bem desenvolvida (entre outras coisas, pela própria fartura de metais), a Espanha acabava comprando muita coisa de outros países, que acabaram, assim, sendo os depositários finais da prata e do outro vindos daqui.

Finalmente, a criação do sistema bancário transformou o “lastro” do dinheiro, por assim dizer, que passou de metais preciosos para o crédito: os bancos e sua capacidade de gerar e financiar o crédito passou a ser mais importante do que a simples posse de ouro. E nisso, também, a Espanha estava atrasada.

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A grande diferença entre dinheiro como ‘metal’ e dinheiro como ‘crédito’ talvez esteja na natureza dos incentivos que cada um fornece. O dinheiro metal favorece uma dinâmica de posse: possuir o metal é possuir o dinheiro, simples assim. Nada mais é incentivado além disso.

No dinheiro ‘crédito’, há um incentivo na própria tomada do empréstimo a criação de condições para que esse empréstimo seja pago. Ou seja, quando um empreendedor toma um empréstimo, ele é incentivado por isso mesmo a pensar no modo como irá pagar esse adiantamento. O próprio banco só empresta o dinheiro quando vê possibilidade de que ele seja pago no futuro. Ou seja, ele também se foca na eficiência presumida do negócio que lhe é proposto.

Assim, indiretamente, o sistema de bancos acaba incentivando a consistência da economia, a previsibilidade, a expectativa razoável de lucros. Diferente da simples posse do metal, que iguala o ganho advindo do comércio ao ganho advindo da sorte. Encontrar uma pepita de ouro, por exemplo, é exatamente a mesma coisa do que ganhar essa pepita empreendendo.

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Assim, à medida que o sistema bancário foi se impondo, ele teria também selecionando as melhores empresas – ou ao menos incentivando essa seleção. Os países que continuaram no sistema de pura extração de bens, como Espanha e Portugal, acabaram incentivando – ou selecionando – menos a sua economia.

Claro que as coisas não são tão simples assim, e acho mais plausível falar em ‘tendências’ e fluxos gerais, do que numa diferença gritante.

Mas, em linhas gerais, essa diferenciação no modo de funcionamento da economia – enraizado, como mencionei, numa narrativa – poderia ajudar a entender o parco desenvolvimento de nossas finanças.

No fundo, nós, países extrativistas, não teríamos tido os mesmos incentivos para selecionar os melhores negócios, ao depender muito menos do crédito privado.

Caberia questionar até que ponto o crédito estatal, característico de nossa história – mas não da dos países desenvolvidos, que cresceram com bancos privados, mais interessados na ‘seleção’ dos devedores – teria tido uma função menos seletiva em nossa economia. Mas isso fica pra outros posts.

2 Respostas para “Política & narrativas 3 – crédito x dinheiro

  1. Gosto deste tema. Trouxeste um exemplo ilustrativo de como ‘ser rico não é ter dinheiro’, mas talvez algo mais na linha do ‘ser ou tornar-se rico é produzir mais do que gastar’. Assunto outra vez pertinente HOJE pois já entramos em uma DÉCADA de dificuldades de aprovar um orçamento federal que seja sustentável (o chamado problema fiscal).

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