Verdadeiro e falso self em Winnicott – parte 1

A psicanálise, desde Freud, se caracterizou por uma leitura do sujeito como descentrado de si mesmo. Isto é, não haveria um sujeito ‘natural’, simples efeito do existir, alguém que fosse ‘igual a si mesmo’. Pelo contrário, para Freud todos somos um emaranhado de impressões e identificações, um complexo, um conjunto, do qual desconhecemos muita coisa.

Isto é, somos um efeito de disposições corporais e ambientais que não controlamos. Estamos longe de ser “senhores de nossa própria casa” – isto é, de nossa psique, como quer boa parte de nosso bom senso.

Como dizia Rimbaud, “Eu é um outro”, e é exatamente isso que lemos em Freud: não há nada de ‘familiar’ naquilo que somos; podemos nos desconhecer completamente. Como conciliar esse ‘despertencimento’ de si com as noções de verdadeiro e falso self, em Winnicott? É isso que vamos tentar fazer neste post.

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Pra começar, dispamos as palavras “verdadeiro” e “falso” de seu contexto filosófico. Isto é, Winnicott não está focando apenas na parte de nossa personalidade que seria mais essencial, mais genuína. Mais especificamente, se há algo de “verdadeiro” no self, isso não está ligado à uma veracidade que seria lógica ou científica, mas antes à pessoalidade, à idiossincrasia, do self.

Assim, por exemplo, lemos em A. Philips (2006, pgs 191/2) que

“O Self Verdadeiro está ligado ao viver físico. Ele é pouco mais do que o resumo da vitalidade motor-sensorial”

Ou então

“O self verdadeiro é o corpo enquanto criativo”

Frases de Winnicott (1960) que ligam o Self Verdadeiro ao corpo, e não a personalidade. Isto é, a “verdade” do self não está relacionada a algum conteúdo mental que seria ‘mais verdadeiro’ ou genuíno do que outros, mas antes ao corpo próprio.

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Isso nos permite concluir que, para o autor, a espontaneidade – ou a criatividade – é pré-subjetiva. Isso é, a “verdade” de nosso Self não estaria em algo que a gente controla ou mesmo reconhece.

Nosso “ser” será uma atualização de alguma potencialidade corporal anterior à consciência. “Ser criativo” significa, nesse contexto, algo como “ser capaz de se entregar a um processo inconsciente e regressivo”, confiando que esse processo regressivo é que vai “criar” (enquanto o “Eu” apenas se entrega).

“Ser”, “criar” e “espontaneidade” ou “criatividade” são termos relacionados à esse núcleo pré-subjetivo e inconsciente que não controlamos.

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Há uma boa dose de incomunicável no Verdadeiro Self. Isso deriva de sua absoluta pessoalidade: ele é tão único que, no limite, não há palavras para ele.

As palavras designam sempre algo comum. Algo que todos experimentamos, e podemos reconhecer.

Não é assim com o Verdadeiro Self. Sendo tão único, não temos palavras pra ele. Ele é a fonte de onde brota nosso movimento vital, o “umbigo do sonho”, como dizia Freud, referindo-se a esse ponto de ligação entre nossa constituição mais íntima (nosso estômago!) e aquilo que nos alimentou no princípio, ou de onde surgimos (o útero materno).

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Incomunicável e incognoscível, o Verdadeiro Self contrasta com o falso Self justamente por isso. Ou seja, enquanto o Verdadeiro Self se caracterizaria pelo seu retraimento, o falso Self seria aquela parte da personalidade que se coloca entre a realidade e o núcleo do Self, como uma barreira de proteção.

O Falso Self é aquela parte da personalidade que se oferece em sacrifício, conformando-se às demandas do real (e do ambiente). Exatamente por isso, o falso Self será comunicável e cognoscível. Ele assume a forma das demandas externas, ele se adapta à elas.

Como uma armadura ou um escudo, ele é visível, está exposto. Mas exatamente por isso – por sua plasticidade e adaptabilidade ao real – ele tende a perder um tanto de seu caráter pessoal.

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O que quero realçar nessa primeira parte é como tudo isso coloca em xeque justamente a noção de um “verdadeiro caráter“, algo que seria ‘verdadeiramente nosso’, nosso ‘verdadeiro ser’. Porque, na formulação de Winnicott, o que é verdadeiro não é nosso; não controlamos, não possuímos, o que somos.

Ao mesmo tempo, aquilo que está sob nosso controle não é nosso verdadeiro self…

Reencontramos, portanto, sob a pena de Winnicott, o mesmo descentramento do sujeito inaugurado por Freud na psicanálise. Na segunda parte deste post, vou tentar ligar esse sujeito descentrado – ou esse ‘ser despossuído de si’ – com o problema do ator e da arte em geral, baseando-me, desta vez, em Nietzsche.

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Notas / bibliografia

PHILIPS, Adams: “Winnicott” – Aparecida, SP: Ideias e Letras, 2006

WINNICOTT, Donald W: “Distorções do Ego em termos de Verdadeiro e Falso Self”, 1960 – citado por Philips

Texto de apoio: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1982-12472020000100011

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