Revolução Neandertal (ficção)

1. A Fábrica

Eram 23:57hs, quase na hora. As 24hs, pontualmente, trocava-se a guarda. A noite estava morna, serena. Não havia nada de diferente no ar. Lembrando disso, meses depois, o guarda que saía pensava consigo mesmo que “não havia como prever” o que aconteceria.

As 24hs foi feita a troca. Assim como na hora anterior, tudo estava sereno. Foi então que perceberam um barulho vindo das caldeiras. Havia algo de estranho ali. O segurança, um novato que iniciara seu trabalho a poucos dias, não soube o que fazer. Como situação não se resolveu, ligou para um colega. Era tarde demais.

Uma a uma, as caldeiras explodiram, com um estrondo ensurdecedor. Os poucos funcionários que trabalhavam ali naquela noite morreram. A fábrica foi fechada.

***

Ali se produzia plástico e derivados de petróleo. Era uma empresa importante para a economia da região, e o baque foi bastante sentido. A polícia, meses depois, ainda não tinha uma direção para seguir. Ninguém assumiu a autoria do acidente. Por outro lado, os operadores da fábrica tinham certeza de que não fora um acidente. Havia muitas rotinas de segurança e controles assegurando um funcionamento continuado e seguro para aquelas máquinas. Uma ocorrência daquelas só poderia ter sido forjada por alguém que entendesse muito bem desses mecanismos. Alguém de dentro.

Foi só depois do primeiro ano de investigações que uma pequena pista foi encontrada – talvez. Uma parte do muro interno, próximo às caldeiras onde tudo se iniciou, parecia ter sido pichado com as letras “N” e “T”, sobrepostas. Mas o que queria dizer isso? Aliás, isso era realmente uma pista, indicava alguma coisa? Sem ter outras linhas de investigação, pensou-se que as letras poderiam indicar uma motivação ecológica, como se quisessem dizer “Nothing that” ou “None of that” (nada disso). Realmente, havia um clima acirrado de luta política em torno das questões ambientais. Mas nada disso se concluiu.

Sem ter outras linhas de investigação, o caso foi arquivado. Muitos anos depois, antigos moradores da região ainda lembrariam daquela noite. “Foi quando tudo mudou”, diziam. A cidade, que era pequena, mas próspera, foi sendo abandonada, até tornar-se quase deserta. Apenas algumas famílias continuaram morando alí, vivendo sabe-se lá como. Era praticamente uma cidade fantasma.

***

Dentre esses poucos moradores, havia um que chamara a atenção dos investigadores. Um sujeito bronco, de poucas palavras, e talvez também pouco inteligente, fora empregado da fábrica por alguns anos antes do acidente. Chegou-se a cogitar sua participação na história, mas nada confirmava essas suspeitas. A começar pelo seu jeito simples, quase simplório; ele não saberia como mexer naquele maquinário complexo, enganando todos os sistemas de controle. Ele também era, afinal de contas, um dos prejudicados pelo que ocorreu: que motivação teria para jogar abaixo seu único e bom emprego?

Mas havia algo em seu sorriso que sugeria não uma tristeza real com o acidente, mas alguma outra coisa… Uma melancolia, uma saudade de algo, talvez. As vezes, quase uma alegria. Para a agrande massa dos investigadores, isso fora relacionado com sua simplicidade. Era realmente um sujeito bruto. Com o fim da fábrica, vivia quase como mendigo. Caçava e plantava alguma coisa para subsistência, e tinha uma aparência e um estilo de vida realmente simples.

Apenas um dos investigadores insistiu em acompanhar um pouco mais esse antigo funcionário. Não encontrou quase nada. Na verdade, seu passado era uma espécie de álibi: parece que ele sempre mantivera uma vida simples. Não fez grandes estudos, não se destacou em nada, tinha sempre, apenas 2 ou 3 amigos por perto, uma ou outra namorada. Parecia não gostar de muita gente. Tudo indicava que ele sempre fora o mesmo tipo limitado, e apenas manteve, após o acidente, a mesma simplicidade. Mas aquele estranho sorriso, aquela mistura de melancolia com alguma coisa mais, quase uma alegria – esperança, talvez? intrigava o investigador. Bom, mas isso eram suspeitas, intuições… e não fatos. Mais nada foi encontrado.

***

Um último detalhe passou batido por todos os investigadores: esse funcionário, que chamavam de “Jack” (provavelmente numa alusão à série de terror, já que havia algo de levemente assustador em seu sorriso), apesar de toda sua simplicidade, ou talvez por isso mesmo, frequentava uma igreja de segunda classe, conhecida como “Nossa Terra”, que não se sabe bem como ainda subsistia naqueles tempos, dado o baixo número de frequentadores. Contavam-se às centenas, não mais do que isso, e estavam espalhados por todo o país; reuniam todo tipo de sujeito, muitos dos quais eram singularmente parecidos com nosso “Jack”: tipos calados, taciturnos, com aparência de broncos. Muitos dentre eles tinham um aspecto físico amedrontador, além daquele sorriso estranho, indefinido, entre o alegre e o triste.

Jack frequentara a igreja desde pequeno. Sua família, que tinha as exatas mesmas características – uma família de Jacks, poderia-se dizer – o introduzira nos cultos, e ele manteve o costume. Por uma estranha coincidência, que não foi levada em conta na investigação, a igreja passara por momentos festivos, pouco depois do acidente na fábrica. Ninguém realmente pensava que as duas coisas pudessem estar relacionadas. Não havia realmente nada que indicasse isso. Apenas aquele sorriso. Apenas aquela atitude estranha, melancólica ou esperançosa, não se podia saber, de um sujeito desinteressante. Nada mais.

Se havia realmente algo naquela cabeça simplória, ninguém foi capaz de perceber.

(continua)

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