Verdadeiro e falso Self em Winnicott (02)

A questão do “verdadeiro Self”, em Winnicott, faz brotar uma série de perguntas e respostas difíceis. Ela põe em relação muita coisa da filosofia e da psicologia, e, se levado a sério, é um conceito-limite, quase um “não-conceito” – ou, mais precisamente um conceito que não faz sentido fora do corpus teórico do autor.

Como tudo em Winnicott, só chegamos na complexidade própria de suas ideias analisando o seu contexto. Os conceitos se comunicam entre sí, e precisam ser levados todos em conta.

Mas eu começaria uma exposição sobre o “verdadeiro Self” falando sobre a importância do corpo.

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Radicalizando uma das direções possíveis em psicanálise – há outras -, Winnicott define a psique como um “efeito da elaboração imaginativa das experiências do corpo”. Vale dizer, nossa subjetividade seria uma espécie de fantasia ou imaginação – história, narrativa – formada a partir das experiências concretas que vamos tendo enquanto corpo biológico.

Isso quer dizer que tudo que é nosso, mesmo subjetivamente, começa no corpo. A partir daí, cada experiência vai sendo elaborada, em níveis cada vez mais complexos de imaginação / simbolização, até chegar a se expressar como algo “do” sujeito.

No meio desse caminho elaborativo – ou, até, mais pro final, como um dos efeitos desse processo, está o Ego. O Self, em contrapartida, será sempre algo maior já que compreende todas as experiências corporais, mais as transformações dessas experiências em imagens e conteúdos mentais. Grosso modo, então, Self = corpo + psique, enquanto Ego = uma das instâncias psíquicas.

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Winnicott supõe, então, uma espécie de processo elaborativo com várias etapas, vários níveis. Mas o ponto que nos interessa, aqui, é que o processo começa no corpo, e só chega no Ego quase ao final.

Entretanto, é ao Ego que nos referimos quando dizemos que “Eu fiz tal coisa”, ou “Eu sou assim”. É no Ego – ou no “Eu”, o que dá no mesmo, neste contexto – que pensamos, quando ouvimos falar de “Verdadeiro Self”. E aí está a questão, que confunde muita gente.

O conceito de “Verdadeiro Self” tem muito mais a ver com a integridade do processo elaborativo como um todo, e muito menos com o Ego, que é’ apenas um dos resultados finais desse processo.

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A ideia desse conceito, na minha leitura, seria diferenciar um processo elaborativo que ocorra de forma congruente, onde todas as etapas de transformação respeitem o movimento inicial, no corpo, de um processo onde, por algum problema do desenvolvimento ou alguma defesa, o processo precise dar mais espaço para a reação a algo do ambiente, do que à elaboração do processo inicial propriamente dito.

Numa imagem, o verdadeiro Self seria como uma fonte de água natural, onde a água chegou à superfície por seus próprios meios, em oposição ao falso Self, que seria como uma fonte artificial, onde o caminho entre a água e a superfície foi imposto desde fora.

Falamos então em “verdadeiro” Self quando há um trânsito entre o interno e o externo sem grandes distorções ou perda de espontaneidade. Um Self “falso” será aquele onde, ao contrário, as trocas entre o interno e o externo não acontecem de forma a preservar a integridade do movimento inicial, precisando atentar mais para as condições externas.

Numa palavra ainda, o Self Verdadeiro é ativo (expressão de algo do Self), enquanto o Self falso é reativo (reação à algo do ambiente).

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Haveria ainda muito a dizer sobre esse conceito, mas é preciso terminar. Como última observação, pondero que o conceito de “Verdadeiro Self” é um conceito clínico, isto é, que se justifica no trabalho de percepção dos impulsos e estrutura do paciente pelo analista, e não um conceito filosófico.

Como espero tenha ficado claro, a “verdade” do Self tem mais a ver com a forma como se dá o trânsito entre mundo interno e mundo externo, do que com conteúdos mentais, personalidade ou formas de ser.

Assim, ninguém “encontra” o seu “verdadeiro Self” como encontra um objeto, simplesmente porque uma das ideias centrais do conceito está em apresentar o Self como um processo.

(Decorre disso que um Self Verdadeiro não implica necessariamente em reconhecimento ou consciência por parte de seu Ego. Isto é, “conhecer-se” não é nem condição, nem efeito de um “verdadeiro Self”. A “verdade” do Self passa inteiramente ao largo do conhecimento que possa ter o Ego).

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