Comunismo x Liberalismo: uma questão moral (3)

Na primeira e na segunda parte desta série, apresentei de forma sucinta o que considero ser problemático nessas grandes propostas de organização e transformação social: elas privilegiam os aspectos econômicos do funcionamento do grupo, deixando em segundo plano os aspectos psicológicos ou morais.

Ocorre que, a meu ver, o aspecto psicológico é fundamental; não pode ser desconsiderado. Uma sociedade mau organizada economicamente pode funcionar bem, quando a dimensão moral está consolidada. Por outro lado, onde a moral desanda, não há melhoramento econômico que sustente o grupo por muito tempo.

Estou aproximando moral de psicológico, não em sentido de regras de boa conduta, valores familiares, etc, mas enquanto expressão da maturidade emocional dos sujeitos, mais ou menos como entendia Nietzsche (ver §19 de ABM)

Tudo isso são questões enormes, que não podem ser mais do que ventiladas aqui. Mas o fato de existir uma espécie de “cegueira” ou recusa disseminada sobre o psicológico, na nossa cultura, me incentiva a tentar recolocar essas questões a partir desse prisma, mesmo que precise trabalhar apenas com generalizações.

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Tomados à distância, tanto socialismo quanto liberalismo podem ser entendidos como maneiras de organizar a sociedade privilegiando um aspecto de nossa psique, e deixando outros à margem. O socialismo foca-se na importância da identificação entre os pares, deixando a individualidade em segundo plano. O liberalismo foca-se na individualidade, deixando a identificação sem lugar.

Acontece que ambos os aspectos são fundamentais para nosso funcionamento social.

A individualidade, ou, mais precisamente, a liberdade de expressar e ver reconhecidos nossos processos internos pelo grupo, é fundamental para que o sujeito se identifique com o que ocorre em volta dele. Similarmente, a identificação, ou a capacidade de sentir algo que ocorre com o grupo como algo “seu”, é central para que possamos contribuir para o grupo como tendemos a contribuir para nosso próprio benefício.

Logo, “individualidade” e “identificação” são processos que se referem mutuamente. Embora apontem em direções divergentes de início são também condição um do outro, na medida em que o indivíduo participa do grupo e vice-versa.

O que poderia explicar a dificuldade de implantação / aceitação de propostas unilaterais como o socialismo e o liberalismo, que se caracterizam tanto pela hipertrofia de um desses processos, quanto pelo abafamento do processo contrário.

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Podemos pensar a relação entre individualidade e identificação como dois círculos diferentes com uma área sobreposta, a qual corresponderia justamente à qualidade de nosso funcionamento social.

Dito de outra forma, nosso funcionamento social depende de termos espaço tanto para o individual quanto para a identificação com o grupo. A maneira como esses dois polos funcionam e se articulam entre si determinaria a qualidade e nosso funcionamento social.

Isto está muito além – ou aquém – das estruturas econômicas, das instituições concretas de uma dada sociedade. É o no próprio nascedouro da subjetividade que o sujeito humano se entrelaça com o “outro” – e, bem assim, é na construção de nosso ser que o grupo deveria ser reconhecido como parte do que compõe o “Eu”.

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Avançando para aspectos mais práticos, o que uma leitura como essa nos permite concluir é que a forma como educamos nossas crianças é fundamental para qualquer tipo de transformação social. Não falo aqui de educação formal, aprender matemática, gramática ou física, mas sim de aprendizado da sociabilidade, da forma como cada um percebe o outro enquanto diferente, mas também enquanto parte do grupo.

Hoje, esses valores estão relegados à família, ou, o que vem a dar no mesmo, ao acaso da maturidade de cada grupo familiar. O que equivale a dizer que não temos nenhuma instituição voltada diretamente para o cultivo desse aspecto dentro da sociedade.

No passado, um dos papéis da religião foi justamente sustentar essa noção de que existe um ponto de intersecção necessário entre o “Eu” e o “Outro”. Isso era feito principalmente através do exemplo, mas ideias e instituições ajudam. Quem nos dará esse exemplo hoje? Políticos? Empresários? Cientistas? Simplesmente não temos um ator social capaz de atuar nesse ponto. E nenhum “produto” estará à venda para solucionar essa questão.

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Concluindo, não vejo outra solução para o problema da sociedade que não passe pelo grau de maturidade emocional alcançado pelos seus membros (entendendo que essa diferenciação & identificação com o outro é uma função dessa maturidade emocional, como já abordei aqui e aqui).

Obviamente isso pode ser ajudado ou atrapalhado por instituições, ideias e valores.

O que não pode, o que não vejo, é como se daria uma transformação social real sem essa fundamentação emocional.

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