A segunda regra fundamental – o tempo do paciente

Como sabemos, Freud estabeleceu desde o início que a ‘regra fundamental’ da análise era a associação livre, o que basicamente quer dizer rebaixar o nível de controle e crítica do pensamento consciente, permitindo-se o acesso às associações inconscientes, ou menos dirigidas.

A qualificação dessa regra como ‘fundamental’ expressa, na minha leitura, o fato de que o essencial numa análise não passa pela consciência, mas pelo contato com o inconsciente. A consciência, o controle da direção associativa, o Ego, a coerência, a lógica, o ‘bom senso’, tudo isso deve ficar em segundo plano, abrindo caminho para aquilo que não controlamos, que não entendemos e que, muitas vezes, nem conhecemos, sobre nosso próprio funcionamento.

Uma vez aberto o caminho para esse contato com o desconhecido em nós mesmos, toma corpo algo que poderíamos chamar de uma “segunda regra” fundamental.

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Essa segunda regra teria a ver com respeitar o tempo próprio desses processos inconscientes no paciente. Isto é, ela chamaria a atenção para a forma e o ritmo pelo qual operamos nossas devoluções ao analisando.

Dito de outro modo: Todo paciente exibirá um distanciamento entre seu funcionamento inconsciente e as ferramentas cognitivas-emocionais disponíveis para lidar com isso. Implícitos nesse distanciamento, encontramos também os limites de cada um para lidar com seu material inconsciente.

Respeitar esses limites é tão importante quanto, creio eu, quanto respeitar a supremacia dos processos inconscientes, para quem se coloca do ponto de vista da psicanálise, claro.

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O próprio Freud reconhecia isso, quando dizia que as interpretações – as percepções do analista em relação ao funcionamento inconsciente do paciente – deveriam ser dadas apenas quando o paciente estivesse muito próximo de descobri-las por si mesmo.

Temos aí uma constatação prática – não adianta oferecer uma interpretação cedo demais, mesmo que correta, porque ela tende a ser negada pelo paciente, por questões emocionais – e também um reconhecimento de que é o tempo do paciente quem dita o ritmo da análise (isso que chamei de “segunda regra fundamental”).

Entendo ainda que, com isso, Freud reconhecia que a interpretação não é apenas “informação”; não se trata apenas de “saber” algo que antes não se sabia, mas de viver uma experiência com o analista. Essa experiência, que é a experiência da análise, acontece em vários níveis, e o conhecimento sobre si mesmo é apenas um deles, a ponta do iceberg, por assim dizer.

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E é isso que torna uma análise tão demorada. É necessário respeitar o tempo dos processos inconscientes; é necessário tempo para criar vínculo, confiar no profissional; e é necessário ainda tempo para viver uma experiência transformadora.

É quase desnecessário dizer que o tempo “gasto” numa análise bem sucedida representa, invariavelmente, tempo de vida a mais, isto é, ganhamos mais qualidade de vida e possibilidades, pelo tempo que deixamos de desperdiçar em escolhas erradas, ou nos becos sem saída da existência.

Mas nem sempre se leva isso em conta, em tempos tão ansiosos quanto o nosso. A análise psicanalítica, nesse contexto, parece um misto de anacronismo e crítica, ao lembrar constantemente que algumas coisas necessitam de tempo. Ninguém terá um bebê com uma semana ou um mês de gestação. Ninguém educará uma criança em duas horas. Ninguém tampouco refará as escolhas e estruturas de sua vida, em uma sessão.

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