Tempos vazios

Hoje é muito prevalente o discurso de que devemos tentar sempre fazer MAIS, ser MAIS produtivos, MULTI-TAREFAS, pró-ATIVOS, EMPREENDEDORES, enfim. Há todo um discurso valorizando a atividade, o fazer, o não ficar parado.

Por mais benefícios que essa atitude possa trazer, é razoável dizer que a passividade, a não-atividade, também tem seus méritos. É sobre isso que quero falar neste post.

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Todo mundo sabe que quando uma jiboia come um animal muito grande, ela fica “jiboiando”, como dizemos por aqui, isto é, dormindo, sem atividades. Na verdade, não é que ela esteja fazendo “nada”; ela está digerindo. E, conforme o tamanho do animal abatido, esta pode ser considerada uma senhora atividade!

Mas ela acontece do lado de dentro. Então, para um observador externo, pode parecer que a cobra simplesmente está parada, sem fazer nada.

Conosco, a mesma coisa acontece. Muitas vezes, necessitamos de um tempo parados, sem atividades nem muito contato – do lado de fora -, simplesmente porque tem muita coisa acontecendo “do lado de dentro”.

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Isso é verdade até fisiologicamente. Os bebês e os adolescentes, por exemplo, dormem muito, e isso está relacionado à geração de novas sinapses e neurônios no cérebro. O sono, hoje sabemos, ajuda a eliminar toxinas que são naturalmente produzidas durante a vigília (estou me baseando no livro do nosso conterrâneo Sidarta Ribeiro sobre o sonho, “O Oráculo da noite”). Então, de certa forma, “não fazer nada” é uma condição para poder ser mais ativo de dia.

Mas também psicologicamente isso é verdade. Se acreditarmos em Freud e na psicanálise, cada pensamento que temos é uma espécie de “esforço”, uma atividade que pode requerer, por si só, uma espécie de “descanso” – mesmo que não mexamos um dedo do lado de fora.

Há muita atividade psicológica acontecendo a todo momento; inclusive, boa parte dela de forma não consciente. Logo, é legítimo, natural e saudável que tenhamos momentos de “vazio”, de parada, para poder bem ‘digerir’ o que ingerimos em forma de pensamentos e emoções.

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E então voltamos ao início do texto. Certamente, há vinculação entre “atividade” e “saúde”; mas isso não deveria acontecer às expensas do descanso necessário para que essa atividade mesmo seja elaborada.

Mais uma vez, a fisiologia nos dá o exemplo: um dos problemas comuns em quem faz muito exercício é a perda de massa, justamente por falta do repouso necessário para que a musculatura se refaça do estresse do exercício.

O ganho de massa acontece durante a noite, dormindo. Poderíamos dizer que, por analogia, nossa “musculatura interior” também se reforça ao anoitecer, quando o sono nos põe em contato com nosso ser não-consciente, não dirigido.

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Assim, por uma dessas contradições tão humanas, é na nossa experiência de repouso e contato relaxado com o inconsciente que processamos informações e experiências que reforçarão nossa atividade consciente.

Mas isso parece difícil para a nossa consciência contemporânea: aceitar um progresso que depende de fatores inconscientes, que não controlamos.

Esse medo de perder o controle talvez se relacione com a desconfiança em relação à natureza que também nos caracteriza hoje em dia (Infelizmente). Porque esse abandono ao inconsciente é, no fundo, uma entrega à natureza, ao natural.

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