Ciência e sonho

Tendemos a fazer um uso do científico e do racional que o opõe ao sonho, como se fossem duas ordens de conhecimento muito diferentes. Na verdade, de tudo que sabemos da psicologia e também pelas neurociências, acreditar ‘demais’ na ciência não é muito diferente de sonhar. Ou seja, entre os dois haveria uma diferença que seria de grau, e não de qualidade. Mas porque não acreditamos nisso?

***

Segundo os antropólogos (1), é comum entre muitas tribos a noção de que a realidade que percebemos ‘acordados’ é apenas parte da realidade; há que se levar em conta também aquela da qual participamos dormindo (ou em êxtases e estados limite da consciência).

Ou seja, o sonho é considerado parte da experiência que temos com o real.

Para quem lida com psicanálise, isso não é nenhuma novidade. Estamos acostumados a entender que o sonho e a realidade se entrecruzam e se alimentam mutuamente. Mas esse não é o entendimento dominante em nossa sociedade.

***

Em geral, entendemos que essa aproximação entre realidade e sonho acontece com os índios por uma espécie de “defasagem” deles em relação ao real. Ou seja, eles perceberiam realidade e sonho como aproximados apenas porque sua noção de realidade não seria tão desenvolvida quanto a nossa.

E é nesse ponto que cabe uma crítica, creio eu. Porque nada do que aprendemos em psicologia (ou em neurociências) nos últimos anos dá suporte para isso.

Não estou dizendo que sonho e realidade sejam a mesma coisa. Estou dizendo apenas que nossa relação com a realidade é sempre indireta, mesmo quando acordados. O que a aproxima, sim, do sonho.

***

Para ser mais exato, precisamos humanizar os dados brutos que percebemos, para que eles façam sentido. E isso não é tão diferente de sonhar, afinal. A diferença estaria mais na forma de humanização, já que o sonho seria uma humanização inconsciente, não dirigida e com pouca participação do “Eu”. E talvez seja isso que nos assuste.

Porque temos uma fé no conhecimento que beira a ignorância. Acreditar de forma absoluta no conhecimento humano é desconhecê-lo, pra dizer o mínimo.

Mas é isso que nos caracteriza – como forma, talvez, de expressar a “fé” no humano que defendemos com unhas e dentes desde o renascimento.

***

Os índios talvez nunca tenham precisado defender assim, absolutamente, o humano, provavelmente porque ele nunca esteve em questão para eles. Quem sabe o quanto devemos à Igreja cristã por essa nossa parcialidade?

Mas é nítido que perdemos algo, ao sobrevalorizar assim o “Eu” e o controle consciente. Desde então, nossa relação com a realidade vem se DES-encantando. Imagino as vezes que somos a sociedade mais chata e aborrecida que já existiu, apenas porque nossa realidade é… científica demais.

O que nos leva, necessariamente, a fantasiar essa realidade, para torná-la nossa. Mas há uma diferença importante entre essa fantasia pessoal e o sonho como parte da experiência do grupo: é justamente o isolamento da fantasia, o fato dela não se comunicar com a realidade do grupo enquanto experiência compartilhada.

***

Equivale a dizer que, em compensação por uma realidade objetiva demais, todos tendemos à fantasiar, individualmente, uma outra realidade, mais “nossa”. Mas estamos sozinhos nessa fantasia; ela não é uma experiência que comunica algo ao grupo, como o sonho, quando aceito socialmente. Ela apenas fala de nosso estranhamento, frente ao real científico.

A propaganda é a que mais se aproveita dessa nossa defasagem em relação ao real, nos prometendo uma adequação menos sofrida com a realidade por um ‘bom preço’. Mas como frequentemente acontece, esses substitutos culturais não são tão efetivos quanto a experiência natural que perdemos, com o deslocamento do sonhar.

Talvez um dia a ciência nos mostre exatamente isso: que o sonhar era benéfico para nossa relação com a verdade. Mas então estaremos apenas ganhando o que já tínhamos de saída; e, quiçá, tenhamos desaprendido tanto o sonhar que só nos reste o pesadelo do real desencantado.

**************

Notas:

(1) citado por Sidarta Ribeiro em “O oráculo da noite”, Companhia das Letras, 2019, pg 151

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s