O Alzheimer inicial

No vídeo que inicia esse post, o professor Christian Dunker veste sua ‘persona’ mais interessante, para mim, conjugando o saber e a amplitude de seu olhar aos objetos da arte contemporânea. Assim, ao mesmo tempo que algo nos é apresentado, temos também sugestões de leitura, aquele vislumbre das camadas de sentido mais profundas que compõe a obra.

Entretanto, sua descrição da experiência do Alzheimer, baseada no filme “Meu Pai”, acabou me sugerindo que é bem mais ou menos isso que todos teríamos vivido nos primeiros meses de vida, segundo Winnicott. Vamos falar mais sobre isso.

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De fato, como Christian coloca muito bem, a experiência do Alzheimer é dilacerante, não só para os acometidos por ele, como principalmente para quem convive com a pessoa.

Isso porque elas assistem a uma espécie de “luto em vida”: o doente não parte de uma vez por todas, mas vai se despedindo da vida – ou de suas memórias – aos poucos, entre tropeços e retomadas que, mais do que dar esperança, põe novamente o dedo na ferida.

Assim, para quem cuida desses doentes, não é possível nem iniciar um luto propriamente dito, em função desses retornos de memória e lucidez, nem deixar de fazê-lo, já que a pessoa não está mais inteiramente ali.

Presas nesse paradoxo, tanto os acompanhantes quanto os doentes encontram-se diante de uma situação que já seria sofrida em si mesmo, mas se torna ainda pior pela forma descontinuada com que o sintoma acontece.

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Meu ponto aqui é utilizar essa imagem do Alzheimer para tentar caracterizar o que teria sido a nossa experiência inicial subjetiva, segundo Winnicott. Porque, para esse autor, o que ainda não dispomos, ao nascer, é justamente a continuidade da experiência.

O que Winnicott está propondo é que as várias experiências que o bebê vai tendo não acontecem integradas na mente, simplesmente porque ainda não há um “sujeito subjetivo” que possa agrupar essas experiências como “minhas”.

Assim, exatamente como no doente com Alzhemier, haveriam “ilhas” de lembranças, ligadas a sujeitos diferentes – aos rudimentos do Ego, digamos assim, e essas ilhas não se comunicariam sempre entre sí, dificultando o acúmulo de experiências.

A única experiência que continua, do ponto de vista do bebê, é a da mãe e seus cuidados. Por isso dizemos que é a mãe quem “amarra” essas experiências soltas do bebê, servindo de ponto de referência fixo para que o bebê possa integrar suas vivências ligando-as todas à algo comum.

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A experiência principal que falta ao bebê é a da continuidade do ser, isto é, do seu existir, do seu estar vivo. Como hoje sabemos pelos avanços das neurociências, cada objeto que percebemos imprime uma certa mudança em nossa atitude; ou seja, cada experiência vivida pelo bebê implica numa certa mudança de seu ser.

Por isso é fundamental que, na relação com a mãe, ele tenha uma espécie de continuidade que servirá de base para sua própria continuidade interior. Para ficar mais claro: a continuidade da experiência de “ser” do bebê começa na continuidade percebida por ele na mãe. O que equivale a dizer que os alicerces de nossa experiência tão íntima de ser ligam-se à forma como nos relacionamos com o cuidado materno.

É essa continuidade que permitirá ao bebê “sair” do Alzheimer inicial onde, supomos, todos nascemos, do ponto de vista subjetivo.

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Com isso, não estou dizendo que o corpo ou o cérebro não tenham experiências de integração ou acumulem memórias; estou dizendo que a ligação subjetiva dessas experiências com um “Eu” também subjetivo depende da continuidade das experiências com um objeto de amor.

Há uma diferença entre memórias que o cérebro registra e o “uso” dessas memórias por um sujeito. Algumas experiências suportam esse entendimento, como uma narrada por Sidarta Ribeiro no livro “O Oráculo da Noite”, onde pacientes com problemas cerebrais eram expostos a um jogo (Tetris), e relatavam depois ter sonhado com blocos caindo – embora não lembrassem de ter visto ou jogado o mesmo. Também Damásio (em “O mistério da Consciência) relata que pacientes com problemas de memória exibem, mesmo assim, um comportamento emocional que implica numa memória “do corpo”, mesmo quando essa não pode ser usada pela subjetividade consciente.

Nós não somos o nosso cérebro, apesar do que dizem por aí – ao menos não em termos absolutos. Por outro lado, é provavelmente verdade que o cérebro “quis” nascer com esses “buracos” justamente para ser preenchido pela experiência da criança, permitindo assim um entrosamento íntimo entre esses dois âmbitos.

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