O sonho de Freud – uma psicologia científica

Enquanto avanço na leitura d”O oráculo da noite”, belo e informativo livro do neurocientista brasileiro Sidarta Ribeiro (Cia das Letras, 2019), as comparações com Freud vão surgindo em minha mente, e nada melhor do que escrever para me livrar delas – sem falar que elas podem ser úteis para alguém.

O ponto do qual quero “me livrar” aqui é a história do famigerado “Projeto para uma psicologia científica”, rascunho que Freud escreveu em 1895 e que, por um paradoxo que quero tentar explicar, foi engavetado sem publicação pelo autor.

***

Inicio chamando a atenção para as coisas em que Freud estava correto. Para quem não sabe, Freud era médico neurologista, e iniciou sua carreira publicando artigos científico sérios e promissores. Chamo a atenção para isso: Freud estava indo bem como cientista. É provável que o “Projeto” fosse o rascunho de mais um livro ou artigo que poderia ter se tornado seminal, tamanha a proximidade das propostas freudianas com o que conhecemos hoje sobre o funcionamento do cérebro.

Cum grano salis, Freud previu acertadamente (conforme capítulos 9 e 10 do livro acima citado) que os mecanismos envolvidos na percepção (consciência) e na fixação da percepção (memória) não poderiam ser os mesmos; que a memória funciona com base num mecanismo de reforço de trajetos neuronais; que experimentar uma memória é análogo a reviver a experiência; que haveria uma energia “livre” e uma energia “ligada” no cérebro, semelhante à energia elétrica; que os sonhos se relacionam com as percepções do dia anterior (os restos diurnos), sem contar na própria descoberta dos neurônios, da qual estava muito próximo (tendo abandonado a pesquisa, parece, para passar uns dias com a noiva).

Verdadeira ou não, essa história da pesquisa abandonada em prol do amor me remete ao tema principal deste post, qual seja, porquê, afinal, Freud abandonou a pesquisa científica padrão, para se lançar num empreendimento temerário como a psicanálise?

***

O “Projeto” situa-se exatamente nesse meio do caminho, onde Freud, o neurologista, escreve sobre a psicologia. Muitos comentadores entendem a decisão de abandonar o “Projeto” nesse momento como uma escolha que se legitimaria à posteriori: ou seja, já que a psicanálise deu certo, então Freud provavelmente abandonou o “Projeto” porque percebeu a insuficiência do modelo biológico nele suposto, para dar conta das problemáticas da clínica. Ou seja, entendem que, no fundo, Freud abandonou o “Projeto” porque abandonou a biologia.

Só que as coisas não ocorreram assim, já que Freud nunca deixou de manter um pé firmemente postado na biologia. Inclusive um texto tão tardio quanto o “Esboço de psicanálise”, escrito em 1939, trás desconcertantes vislumbres de um diálogo fecundo entre os achados da clínica e da biologia – algo muito diferente de um “abandono” dessa última.

Assim, Freud permanecia atento à biologia como fundamento para a psicologia. Creio então que os comentadores erram, ao intensificar uma dicotomia biologia-psicologia que o próprio Freud parece ter superado já no início da psicanálise.

***

Se lermos a “Introdução do Editor Inglês” que precede a publicação do “Projeto” na edição brasileira das Obras Completas de Freud (Imago, 2006, vol I, pgs 335 e ss), uma outra hipótese tornar-se-á viável, a saber, que Freud abandonou o “Projeto” justamente por seu respeito pela biologia.

Como transparece nas cartas enviadas ao amigo Fliess na época da redação do manuscrito, Freud sentia-se incapaz de dominar o assunto por completo. Suas hipóteses obrigavam-no a imaginar uma série de postulados sem qualquer correspondência concreta no saber da época. De fato, algumas de suas hipóteses somente nos últimos anos vem sendo confirmadas pela ciência (cf. Sidarta, op. cit).

Por outro lado, seu conhecimento clínico da neurose vinha se avolumando, como ele comenta nessas mesmas cartas. Assim, não teria ele escolhido, afinal, ligar-se àquilo que tinha alguma correspondência com o real, ao invés de arriscar-se apenas em conjecturas que não podia provar (à época)?

***

Os críticos da psicanálise certamente perguntarão porque a clínica freudiana seria algo mais do que mera conjectura. Ao que eu responderia que ela produz uma mudança na percepção dos doentes em relação ao seu próprio sofrimento, e isso é concreto – por mais que possamos estar descrevendo mal o processo em si mesmo.

Acredito que Freud tomou o partido partido que tomou – procurando explicar os sonhos, os atos falhos, o inconsciente – porque, por mais estranhos e intangíveis que fossem as suas hipóteses, elas ao menos encontravam correspondência na clínica. Ao passo que a biologia da época pouco tinha a oferecer nesse ponto específico.

Tudo se passa como se Freud estivesse oferecendo à biologia as provas que ele podia oferecer – ou seja, provas clínicas. Olhando em retrospectiva, o que deveria surpreender não são tanto os erros de Freud, legitimados e até esperados, dado o contexto da ciência da época, mas antes os seus acertos.

***

Por fim, o fosso separando a concretude dos processos biológicos e o acontecer psicológico, embora tenha diminuído muito, ainda nos é intransponível. Agora que começamos a poder intervir diretamente no cérebro, com chips que “leem” pensamentos (aqui e aqui, algumas notícias), é provável que esse fosso diminua.

A partir disso é provável que, já num futuro próximo, estejamos preparados para entender o psicológico e o biológico como duas faces da mesma coisa. Sendo assim, tanto faz, afinal, por quais caminhos abarcamos esse mesmo fenômeno, como entendo que Freud quis mostrar.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s