Experiências de inconsciência

Quando nos dispomos a iniciar um diálogo entre a psicanálise e outros saberes, logo fica claro que há duas acepções bem diferentes para o termo “inconsciente”. Uma acepção tem a ver com tudo o que não é consciente; o funcionamento dos órgãos, os equilíbrios homeostáticos que o corpo preserva sem nossa intervenção, alguns processos associativos, etc. Outra tem a ver com “o” inconsciente enquanto sistema, tal qual proposto por Freud.

As diferenças são várias. A começar que o primeiro inconsciente é um adjetivo: ele qualifica uma série de acontecimentos como “não-conscientes”, enquanto o segundo é um substantivo, já que Freud pretendeu estar descrevendo um sistema com funcionamentos específicos. A primeira acepção, também, é hoje largamente aceita pela comunidade científica em geral, ao passo que a segunda ainda engatinha nesse quesito.

Independente disso, quero compartilhar neste post alguns exemplos desses dois tipos de “inconsciente”, para deixar as coisas ainda mais claras.

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O primeiro exemplo de que me lembro envolve uma doença, que me levou ao hospital ainda quando criança. Não lembro exatamente porque estava lá, mas lembro claramente de quando, após toma o café, quis devolver a bandeja onde me serviram, só que… por estar um pouco “inconsciente”, não percebi que eu estava na parte de cima de um beliche! Acabei caindo e derrubando toda a louça…

O segundo exemplo também envolve estragos, e deve ter ocorrido ali pelos meus dezoito anos. Naquela época, eu bebia bastante, e numa excursão que fazia com amigos, durante uma competição para ver quem bebia mais – não exatamente o exemplo mais saudável de esporte… -acabei… entrando em coma alcoólico! O surpreendente, pra mim, foi que prossegui bebendo e agindo por bastante tempo depois de perder a consciência.

Mais ou menos nessa época tive uma experiência ainda mais assustadora quando ingeri uma erva com efeito psicotrópico, que me levou a um ataque de pânico – uma bad trip? – por mais ou menos duas horas. Hoje isso se tornou motivo de riso, mas na época cheguei a achar que iria morrer, pelas palpitações descontroladas que a droga produziu em mim, sem contar a sensação horripilante de estar perdendo a consciência em curtos intervalos, como de 10 em 10 segundos. Lembro de ter cogitado seriamente, quando os remendos de consciência se juntaram, que estava ficando louco. Lembro também da dificuldade em “aceitar” – integrar, eu diria hoje – essa experiência, talvez majorada pelo fato dela parecer estar no limiar do sonho / alucinação.

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Embora diferentes, cada uma dessas situações exemplifica um tipo de “inconsciência” que tem bem pouco a ver com o inconsciente de Freud. Para além de algumas poucas observações, do tipo “ser capaz de conversar e agir sem a dominância do Ego”, essas experiências não levariam ninguém a postular que existe um sistema inconsciente governando nossa psique.

Mas quando, durante uma análise, percebemos que uma série de ações de praticamos parecem expressar um mesmo sentido – para nós, inconsciente -, como alguém que sempre escolhe parceiros de um certo tipo, ou sempre percebe o mundo a partir de um certo vértice (colocando-se como culpado, ou perseguido, ou injustiçado, etc), ou sempre repete uma atitude, mesmo sem saber porquê -, aí, talvez, estejamos tocando na segunda acepção do termo “inconsciente”.

Perceba que a ênfase está na repetição dos comportamentos; escolher mal, sentir-se vítima ou fazer algum ritual não são problemas em si mesmos. Mas quando se tornam um padrão, podem estar relacionados à sentidos inconscientes, e é aí que o psicanalista vai buscar exercer sua arte.

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Paradoxalmente, os melhores exemplos do inconsciente freudiano ocorrem quando existe uma consciência para se incomodar com isso – seja não aceitando, ou esquecendo, ou recalcando. A forma “princeps” do inconsciente é aquela cuja sombra aparece na consciência, mesmo que borrada.

Talvez por isso a terceira experiência narrada acima tenha sido a mais assustadora, na medida em que, aos pedaços e como que entrecortada, a consciência persistia, ao menos o suficiente para apavorar-se com sua falta de controle sobre o que acontecia.

Penso ainda que algumas experiências de sofrimento psíquico devem se assemelhar ao que vivi, marcadas pela sensação deprimente da dissimetria entre nossa capacidade de consciência e integração, e as demandas do mundo, que parecem então largamente excessivas.

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Ao final, sobrevivi à minha própria adolescência (rsrsrs), e vejo que é possível retirar algum aprendizado daí. A importância da quietude e do holding ambiental, propostas por Winnicott, por exemplo, são coisas que ficaram claríssimas pra mim, a partir de experiências como as narradas acima.

Nada parecia me assustar mais do que ter que pensar, ter que decidir, ter que me cuidar, naquele estado. O que fazia a presença de alguém confiável simplesmente a única coisa que importava.

Algo análogo ao que um bebê deve sentir, psicologicamente, diante do assalto das impressões descontroladas do mundo.

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