A Arte como espaço transicional

Atahualpa Yupanqui

A veces em llanto

se vuelve canto en el andar

Atahualpa Yupanqui

.

.

A arte é uma realização – encontra suporte no real – de algo do mundo interno. No entanto, não é nem puramente real nem puramente imaginado; é uma experiência transicional.

***

Já falei sobre isso em diversos posts, mas, psicologicamente, nunca nos relacionamos diretamente com o real; há sempre uma interpretação, um uso, uma perspectiva, uma subjetivação do dado concreto, que o torna efetivamente humano.

O inverso também é verdadeiro, e não é porque algo chega à nossa mente vindo do mundo interno que temos sempre as ferramentas necessárias para lidar com isso. Também para nossos processos internos precisamos de intermediários, de intermediações.

A arte é uma dessas intermediações.

***

Na arte realizamos, botamos pra fora, algo de nosso mundo interno. Muitas vezes, mal sabemos o que é esse “algo”; somos surpreendidos pela obra, tanto quanto qualquer um.

Mas o importante aqui, para o artista, não é saber em que consiste esse pedaço de seu mundo interno que “nasceu”; mas sim expressá-lo, dar-lhe uma forma (mesmo que apenas materialmente).

O essencial, para o artista, é essa expressão, já que por meio dela ele elabora, digere, integra, algo de muito seu.

***

Pode parecer equivocado que tenhamos algo desconhecido em nós mesmos. Mas creio que, para quem já tem um pouco de estrada na vida, isso é simplesmente um fato.

Habitamos um corpo, uma subjetividade, uma cultura, com os quais não coincidimos completamente. Há regiões imensas de nosso ser que quase nunca visitamos. Nós – nosso “Ego”, melhor dizendo – é uma parte pequena do continente que somos. Eis tudo.

Mas, pela arte, algumas dessas coisas encontram caminho para nosso ser. Ao expressá-las, ao transformá-las, nós também nos aproximamos delas. Nos aproximamos do que nos constitui.

***

A arte é, assim, um espaço intermediário, transicional, entre nosso ser e o ser das coisas, entre nossa realidade interna (mesmo desconhecida) e a realidade compartilhada.

Ela nos aproxima de algo fundamentalmente humano, que é o criar (e também o destruir).

Na canção com a qual encerro esse post, Mercedes Sosa nos fala “desse azul”, uma cor fugidia ao qual ela parece aspirar, mas que não se consolida, não se concretiza de todo.Como se fosse uma coisa difícil, impossível talvez, para além do desejar. Lembrando que “azul” é a cor da bandeira Argentina, que vivia uma ditadura na época, e também que “Ay, este azul”, em espanhol, diz-se quase como “Ay, este SUL” – o sul que, com certeza, existe no coração de muitos poetas, como a realização artística de uma terra de liberdade e justiça. Uma terra utópica, ou transicional –

2 Respostas para “A Arte como espaço transicional

  1. Pingback: 20210609. There is no strong point in arguing. – Apontamentos sobre tudo·

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s