O “Eu” é um objeto

Talvez nada crie tanta confusão quando se discute psicanálise do que isso: entender que o “Eu” é uma unidade. Para a psicanálise, não é assim. Não só o “Eu” seria um aglomerado de partes, como, pra piorar, ele poderia ser incluído entre os objetos com os quais nos relacionamos.

Ou seja, para a psicanálise, o “Eu” pode ser pensado como algo externo à subjetividade.

Complicou?

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Pode ser complicado, sim, mas ninguém disse que era simples. 🙂

Diversos processos da clínica sustentam essa leitura, a começar pelo desconhecimento que temos de nós mesmos, e que seria difícil de explicar se o “Eu” fosse uma unidade.

A paixão, onde o “Eu” do sujeito é substituído pelo objeto de amor, e também a agressividade que retiramos de um objeto de amor e colocamos sobre o “Eu” – na culpa patológica, ou no luto, por exemplo – mostram que, ao menos em termos de funcionamento, o “Eu” é idêntico aos objetos.

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A partir desses exemplos ficamos tentados, inclusive, a entender que o “Eu” do qual temos consciência se forma, na verdade, da introjeção de um objeto de amor. É mais ou menos o que diz Freud, aliás.

Embora não haja consenso sobre todos os passos desse processo, esquematicamente eu diria que

1) há um primeiro “Eu”, que é corporal;

2) esse “Eu” se apaixona por um objeto (a mãe, por exemplo)

3) esse objeto é simbolizado (o Eu corporal cria pra si um representante da mãe, uma ideia da mãe),

4) a partir dessa simbolização do objeto, é criado também uma simbolização do Eu corporal

Apenas esse último “Eu” simbolizado, que chamaremos aqui de “Eu superficial” ou “Eu psicológico”, é o que entendemos quando nos referimos ao “Eu” em geral.

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Todos teríamos, então, dois “Eus”: um corporal, formado a partir dos processos biológicos e fisiológicos do desenvolvimento (integração, controle muscular, atenção dirigida, etc), e outro psicológico, formado a partir dessa relação com um objeto de amor.

Freud deixa subtendido, inclusive, que o Eu psicológico se formaria como um substituto de um objeto de amor perdido. Vale dizer, o Eu corporal criaria para si o Eu psicológico no lugar do amor objetal inicial (pela mãe, em nosso exemplo).

Assim, “amamos” a nossa própria imagem (o Eu psicológico), em parte, porque ela foi formada em cima, ou a partir, do modelo de um objeto de amor anterior.

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Digo “em parte” porque, como vimos, o “Eu total” é formado por duas partes diferentes, que poderíamos pensar como duas fontes de informação e experiência para o resultado final daquilo que vivenciamos.

Assim, podemos nos amar como resultado dessa formação relacional do Eu psicológico, mas também como consequência natural do Eu corporal, que parece ter um interesse sobre sua própria integridade que extrapola os determinantes da camada mais superficial do Eu.

Vemos isso em animais, por exemplo, e não há motivos para pensar que isso não existiria em humanos.

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Nos casos benignos, há uma certa sobreposição entre o Eu psicológico e o Eu corporal, ou ao menos eles não se contradizem muito. É possível, então, desenvolver uma experiência de Eu total integrada, onde tanto o aspecto relacional quanto o corporal contribuem para nossa vivência.

Em outros casos a clínica nos mostra que nossa auto-imagem (o Eu psicológico) pode estar tremendamente disfuncional em relação ao restante da subjetividade. Não só o corpo não é vivido como algo “próprio”, algo que “me” pertence, como muitos processos de pensamento, ideias e memórias, são vividas como “externos”.

Penso esses dois Eus como duas árvores enraizadas cada uma em um elemento diferente: o Eu corporal se enraíza no corpo e seus processos, nos instintos (a terra, na metáfora); já o Eu psicológico se enraíza no social, nas nossas relações com os outros significantes (o céu, na imagem). Mas nossa experiência total do Eu se forma a partir da soma das “copas” dessas árvores, das suas intersecções.

Todas as áreas que não se sobrepõe podem indicar problemas (ou é algo do corpo que não é acolhido ao nível psicológico, ou é algo relacional que não encontra correspondência no corpo, etc).

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Uma experiência mais próxima (ou menos clínica) dessa divisão nos vem da criatividade: sabemos que não controlamos a criatividade como controlamos nosso braço, por exemplo. Ninguém chega e diz: “agora vou ter uma ideia genial”, simplesmente porque não é assim que funciona. Nosso Eu psicológico não controla diretamente a criação.

Criar está mais para o lado do Eu corporal. Ou seja, tem mais a ver com o relaxamento, com a diminuição do controle consciente. Por isso é que muitos problemas foram resolvidos em sonhos: há diversas histórias sobre como pensadores e artistas encontraram, dormindo, soluções para problemas que não conseguiam resolver na vigília (ver, por exemplo, Sidarta Ribeiro, “O oráculo da noite”, Cia das Letras, 2019).

Isso nos mostra também que há um trânsito de informações entre os dois “Eus”. O problema percebido e estruturado pelo Eu psicológico acaba chegando ao Eu corporal, que criativamente inventa uma solução.

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Por fim, compreender isso nos ajuda a compreender os processos que amiúde encontramos na clínica. É muito difícil explicar como uma pessoa pode estar se agredindo e ao mesmo tempo querendo não se agredir, por exemplo, a não ser que estruturemos a situação na base de uma multiplicidade de sujeitos ou de “Eus” em relação.

A nossa cultura, tradicionalmente, supervalorizou a consciência e o “Eu superficial” como sendo toda a experiência do sujeito. Temos dificuldade em reconhecer e permitir os processos que não estão sob controle consciente. Paradoxalmente, nossa aposta por uma ampliação da consciência acaba resultando num desconhecimento de nós mesmos.

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