O inconsciente é o outro

Talvez a noção mais relevante da psicanálise para o presente não seja a ideia do inconsciente – bastante incorporada hoje às neurociências, pelo menos em seu sentido descritivo -, mas a percepção da radical importância da relação com outras pessoas para a configuração de nossa personalidade.

Sabemos hoje que as experiências de vida são realmente importantes, e modulam, constroem, literalmente, nosso cérebro. Isso também foi incorporado às neurociências, a ponto de podermos dizer, a partir dela e também da psicanálise, que em grande parte nós somos o produto de nossa história de vida.

Mas o que ainda não vejo tão incorporado à neurociência é a importância diferencial que essa relação com o outro teria.

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Para a psicanálise, desde sempre, as experiências de vida foram reconhecidas como fundamentais para a construção de nossa personalidade. Mas, dentre essas experiências, aquelas relacionadas aos “outros significativos”, isto é, àquelas pessoas que importam ou importaram para nós, teriam um peso ímpar.

O exemplo clássico aqui é a ideia do “complexo de édipo” freudiana: a hipótese de que haveria um conflito formador e universal no desenvolvimento humano, envolvendo o amor e o ódio às figuras parentais.

O complexo, em sí, ainda é uma ideia discutida, mas o papel diferencial das experiências com os pais é algo muito mais disseminado entre as várias escolas de psicanálise e mesmo de psicologia.

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Winnicott operou uma torção teórica nesse contexto que me parece muito importante: primeiro, ele ampliou as figuras parentais com a noção de “ambiente”, algo muito mais amplo, que inclui os cuidados e comportamentos objetivos dos pais, a materialidade concreta do ambiente mais a forma como essas experiências são vividas pela criança.

Segundo, ele incluiu na equação as noções de ‘objeto subjetivo”, “necessidade de ilusão”, “onipotência” e “real”, esse último como uma ofensa aos três conceitos anteriores.

Com isso, é como se o conflito central do ser humano, em Winnicott, não fosse mais o édipo, mas o conflito com a realidade. Dito de outro modo: todos sentiríamos a necessidade de viver a relação com a realidade como algo submetido à nossa onipotência (na fantasia), ao mesmo tempo que todos viveríamos a frustração de aprender que isso só acontece de forma muito limitada.

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Vale dizer, a realidade é o “outro” por excelência, no nosso desenvolvimento emocional. Um “outro” que nunca chegaremos a subjugar, a colocar sobre nosso controle onipotente. Um “outro” diante do qual convocamos nossos ‘outros significativos’ – pais, amigos, pessoas queridas – como escudos, como auxiliares reafirmadores. Como compensação, em certo sentido.

A realidade, com suas determinações, se opõe à nossas necessidades. É nosso arqui-inimigo, se assim posso dizer, ao mesmo tempo em que, paradoxalmente, só podemos viver plenamente nossos impulsos realizando-os de alguma forma.

Isto é, nosso conflito formador estaria exatamente aí: precisamos nos afastar da realidade, interpondo entre nós e ela algumas camadas de sentido, ao mesmo tempo que precisamos nos aproximar da realidade para viver plenamente nosso ser – expressar, tirar de nosso mundo interno, pôr pra fora, nossos impulsos.

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O “outro”, as outras pessoas, representam, pra nós, esse lugar ambíguo que é, ao mesmo tempo, parte da realidade em sua ego-distonia e parte de nossas relações de sustentação (quando atuam como ego-auxiliar, por exemplo).

Como a realidade, também, o “outro” ocupa naturalmente o espaço daquilo que não integramos ao nosso ser, daquilo que em geral aparece como não-Eu – ou seja, de nosso inconsciente.

Poderíamos dizer, então, parodiando Lacan, que “O inconsciente é o outro”. Ou que nosso inconsciente – aquilo que nos compõe, mas não está integrado à nossa experiência consciente – se expressa concretamente no real, na forma como organizamos nosso entorno, o ambiente que sustentamos conosco.

O que aproximaria a psicanálise de uma psicologia concreta –

2 Respostas para “O inconsciente é o outro

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