O problema da loucura humana

Quando ainda estava na graduação, acabei me filiando, sem perceber, a uma das duas “facções” que havia no meu curso a respeito do que seria a loucura humana. Estou falando em “loucura”, aqui, no sentido genérico, popular, não diagnóstico. Você já deve ter ouvido algo assim por aí, já que são questões de senso comum. Algo como “o que é a loucura? como defini-la, sem pressupor uma ‘norma’, um normal?”. Ou ainda “não haveria algo de saudável na loucura? Não seria ela, no fim, apenas expressão da dificuldade da sociedade em aceitar o diferente?”.

Questões todas que faziam – e fazem ainda – muito sentido, e eram colocadas em contraposição à outra ‘facção’, que entendia que sim, existia algo que caracterizava a saúde e a normalidade, mesmo que sem definições rígidas, e em consequência, também a loucura podia ser definida, ao menos em linhas gerais.

O que também faz sentido, como vejo hoje.

Como entender, então, a loucura, se essas duas posições aparentemente excludentes são verdadeiras?

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Pra começar, temos que relativizar essa dicotomia entre “normal” e “louco”. Pense, por exemplo, na Idade Média, na ‘caça às bruxas’. As pessoas que faziam isso – acreditavam que existiam bruxas, as ‘caçavam’ e inclusive queimavam pessoas vivas – não eram “loucas”, no sentido clínico do termo.

Simplesmente acreditavam em algo que, para nós, é muito diferente, a ponto que termos dificuldade de entender que eles pensavam como nós (isto é, tinham a mesma capacidade de pensamento e consciência, mas com conteúdos e ideias diferentes sendo operadas por essa capacidade).

E antes que você pense que “ah, isso é coisa do passado ignorante e sombrio”, pense por um minuto no que nossa sociedade está fazendo com o meio ambiente. Nós estamos literalmente matando todo tipo de vida no planeta. Hoje, agora, nesse minuto. Como você acha que isso vai parecer para nossos descendentes, daqui a 500 anos?

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Loucura, provavelmente. Mas, de novo, não estamos loucos no sentido clínico. Apenas estamos agindo (ou permitindo que se aja) de maneira incompreensível para alguém que olhe os acontecimentos à distância (e valorize a vida do planeta, claro).

O ponto que deve ser notado aqui, é que a loucura não se relaciona de modo muito firme com os conteúdos da mente. Tanto alguém “louco” pode pensar qualquer coisa, a ponto de parecer “normal” (e até enganar os outros), quanto pessoas “normais” podem pensar coisas que parecem loucura. A loucura não se define por um conteúdo específico.

Mas é aí que mora a dificuldade da coisa, porque, ao mesmo tempo, identificamos o louco como alguém que “pensa diferente”. Como entender essa diferença?

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Esse é o cerne da questão. Como humanos, temos a capacidade de acreditar em qualquer coisa. Vale dizer, nossos conteúdos mentais podem ser os mais variados, e não precisam ter lógica. Mas, em geral, tendemos a aceitar o universo de crenças de nosso meio. É mais ou menos isso que chamamos de “realidade”.

A realidade, então, é uma crença comum. Como tal, ela pode mudar, por diversos motivos – desde um descobrimento científico até uma percepção distorcida – louca – das coisas.

A diferença entre o “sábio” e o “louco” é que o sábio, mesmo enxergando as coisas diferentes, manterá uma capacidade de dialogar com as demais visões, ao passo que a loucura não dialoga. Ela está mais para uma espécie de certeza rígida, fechada em si mesmo.

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Dito de forma clara: a loucura se define mais por aquilo que exclui, do que por aquilo que acolhe. Ou ainda: a loucura se caracteriza por uma incapacidade de sustentar o diálogo com o “outro”, com o diferente – mesmo quando esse “outro” é o senso comum, ou aquilo que chamamos de “a realidade”.

Outra definição ainda poderia ser: o louco é alguém incapaz de manter separados o seu mundo interno (fantasias, desejos) e o mundo externo (realidade). Ao invés de manter um diálogo e uma troca entre essas duas instâncias, ele tende a sobrevalorizar apenas uma delas, ou busca fazê-las coincidir “à força”.

Assim, compreendemos como as duas ‘facções’ da minha graduação tinham suas razões de ser, mesmo parecendo opostas: há, sim, uma relação entre a loucura e o “não socialmente aceito” – embora isso não seja suficiente para definir a loucura -, ao mesmo tempo que há uma “norma” para o funcionamento humano sadio – poder dialogar com o “outro”, mesmo discordando; manter separados mundo interno e mundo externo – que permite definir a loucura em si mesmo.

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O grande ponto dessa discussão, a meu ver, é que ela ajuda a tornar explícito como a loucura, isto é, o afastamento da materialidade objetiva das coisas, praticamente define o humano.

Nós poderíamos, todos, manter uma visão uniforme da realidade, sem inserir nisso nossa subjetividade. Teríamos um mundo “padrão”, uma “verdade” sobre o real que seria indiscutível. Mas o que nos define como humanos é justamente essa inserção de subjetividade nos dados reais; é justamente esse afastamento do real “puro”, da pura objetividade.

O que é algo muito próximo da loucura, que também exibe um afastamento do real. Eis porque foi sempre tão difícil definir a loucura: ela emula o funcionamento humano normal, diante da realidade. Só que vai um pouco mais além, inserindo subjetividade demais, a ponto de perder o contato com os outros, o grupo.

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