Culpa e biologia

Nós que estudamos psicologia ficamos muitas vezes ‘bitolados’, tendendo a ‘psicologizar’ tudo. O que pode nos levar a perceber as coisas de forma enviesada, desconsiderando dados importantes. A falta de uma perspectiva evolucionista na psicanálise é um exemplo: todas as ciências ligadas à vida se beneficiaram ao incluir a teoria evolucionista em seu repertório, enquanto na psicanálise… nada. Quase como se Darwin não existisse.

Chamo isso de “psicologismo”, a tendência a colocar a psicologia como explicação última de todas as coisas, o que só é viável quando deixamos de lado boa parte dos demais saberes.

A culpa é um bom exemplo.

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“Culpa” é um sentimento bastante bem caracterizado em psicanálise, geralmente entendida como um ato de auto-agressão: o sujeito se culpa (=se agride) porque desejou algo que ele mesmo não aceita, ou porque se identificou com alguém que o agrediu no passado, ou porque repete consigo uma relação de autoridade que foi importante no seu desenvolvimento…

Note que todas as causas explicativas da culpa são psicológicas: é preciso haver um conflito no sujeito; é preciso haver uma identificação com outras pessoas, etc.

Tudo isso é válido, e faz sentido. Agora, o fato de isso funcionar e existir, não quer dizer que explique todo o processo.

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Há experiências simples, que dificilmente se enquadram nessa definição puramente psicológica. A começar por algo que muita gente vivencia dentro de casa: os animais de estimação exibem claros comportamentos de culpa. Como não podemos supor toda essa complexidade subjetiva nos nossos cães, só nos resta pensar que a culpa existe em nível puramente biológico.

Nessa linha, autores como Antônio Damásio “engrossam o caldo” da dúvida, ao fornecer sustentação empírica para a visão de que existe um substrato biológico para as emoções, mesmo nos seres humanos.

Em seu livro “A estranha ordem das coisas”, Damásio argumenta que, à semelhança de outros animais, possuímos emoções sociais que são moduladas e trabalhadas pela cultura, mas não são criadas por ela. E esse é um ponto fundamental.

Pois é muito diferente entender que um sentimento como a culpa é um produto exclusivo de nossos relacionamentos interpessoais, do que entender que se trata de um comportamento evolutivo incluído em nossas habilidades sociais, que apenas se deixa modular, em seus aspectos finais, a partir das relações com o outro.

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Isso tem enormes implicações em psicanálise. Autores como Lacan, que excluem radicalmente o biológico da causação subjetiva, passam a ter um “ônus de prova” maior, isto é, precisam encontrar experiências concretas que suportem essa separação radical entre o homem e os demais animais, para permanecerem críveis. Já Winnicott e Freud, que são muito mais próximos ao biológico, praticamente não precisam de adequação nenhuma, quando confrontados aos achados de Damásio.

De minha parte, acho muito mais condizente com a experiência clínica entender comportamentos como a culpa a partir dessa matriz mista. Penso em experiências que tive com pacientes muito culpados, como obsessivos e depressivos, nos quais as crises de culpa chegavam próximo ao paroxismo, com ideias de suicídio e autoagressão. Embora essas crises se explicassem pelos dados da história dos pacientes, nos termos da psicanálise, a intensidade da tendência auto-agressiva sempre me pareceu extrapolar o puramente psicológico.

Usando uma imagem, podemos pensar a expressão da culpa como algo semelhante ao percurso de um rio: enquanto, por um lado, a correnteza e o volume total da água dependem muito claramente da “fonte” do rio, isto é, de aspectos internos à própria nascente d’água, por outro lado o caminho específico que o rio percorrerá não depende tanto dele, mas dos contornos do terreno que encontrará pela frente – ou seja, é algo externo ao próprio rio.

Da mesma forma, a intensidade do sentimento de culpa parece se relacionar mais com sua “fonte” biológica, enquanto que os contornos e formas específicas de sua expressão se relacionam diretamente com as experiências de vida.

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Um psicólogo poderia argumentar que a influência da aprendizagem no desenvolvimento vai muito além do que simplesmente dar a forma final a um comportamento natural, podendo inclusive o intensificar ou mitigar. Por outro lado, a biologia vem tentando sustentar a algum tempo que o psicológico é praticamente desprezível na estruturação desses comportamentos.

Não precisamos adotar nenhuma posição extrema em relação à isso, sendo muito mais prudente nos precavermos de assumir uma posição exclusivista que, essa sim, não parece se adequar aos dados que dispomos.

Nem a psicologia, nem a biologia, explicam tudo. Por outro lado, o psicológico faria bem em admitir uma importância maior do corpo na causação psicológica, assim como o biólogo se aproximaria da experiência total, ao incluir a influência do desenvolvimento emocional nas determinações da biologia.

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Como psicólogo, acho importante fazer essa “mea culpa”. Fico maravilhado ao pensar nas traduções possíveis que precisamos fazer, entre os achados da clínica (=psicológicos) e os “poderes” que a biologia vem enraizando no corpo.

Talvez ainda estejamos -nós, psicólogos – reféns de uma visão idealista da mente, que mesmo sem querer, acaba entronizando-a como algo essencialmente diferente daquilo que vemos em outras espécies.

Sustentamos, assim, aquela antiga imagem do homem como “semelhante à Deus”, mesmo pretendendo ser científicos. Mas já está na hora de fazermos as pazes com nosso “Eu animal”, e de pensarmos que mesmo a sociabilidade pode ser algo inscrito em nossa biologia. Com todas as suas consequências teóricas –

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