O suporte biológico da psicanálise – Sidarta Ribeiro com Bion

Bion propôs um modelo de funcionamento mental extremamente simplificado, mas também extremamente fértil. Sua ideia geral pode ser resumida como segue: tudo que é percebido pelo aparelho mental precisa ser elaborado para poder ser utilizado. Essa elaboração envolve fatores constitucionais, mas também relacionais ou interacionais. O percebido que é elaborado cria uma rede de imagens entrelaçadas, uma narrativa, que separa o mental em dois âmbitos ou sistemas: o consciente, voltado para o relacional, o presente e a atenção (o que se relacionaria com a vigília), e o inconsciente, voltado para o corpo, as memórias e o sonho (o que se relacionaria com o sono).

O impressionante é ver as neurociências se aproximando – algumas décadas depois – de uma imagem do cérebro muito parecida com isso.

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Ao menos é o que pude concluir a partir da leitura do livro “O oráculo da noite”, do neurocientista brasileiro Sidarta Ribeiro, que trata do sonho e do sono, focando na importância dos mesmos para nossa saúde em geral e nos mecanismos que vêm sendo descobertos pela pesquisa nos últimos anos.

São muitos os pontos de contato com a psicanálise. Quero focar aqui apenas em um, qual seja: a importância do sono e do sonho no processo tanto de consolidação das memórias quanto de seleção das mesmas. Ou seja, como dormir nos ajuda a preservar algo do que vivemos, e também a nos desligar de outras tantas coisas.

Quero lembrar aqui que, já na “Comunicação preliminar”, publicada em 1893, Freud relacionava o sofrimento mental histérico à reminiscências. Ou seja, ao abordarmos os mecanismos cerebrais de preservação e seleção de memórias, estamos abarcando o próprio cerne do sofrimento mental, e também daquilo que constitui nossa subjetividade. Pois não existe subjetividade sem memória.

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O livro de Sidarta parte do questionamento sobre o sonho: qual a sua função? Porque a mente insiste em nos apresentar imagens, geralmente desconexas, não informativas, a cada noite que passa? E logo responde o que a ciência vem encontrando, ou seja, que há uma ligação essencial entre o sono e a elaboração das experiências do dia anterior – mais ou menos como queria Freud -, e especialmente entre essa massa de memórias que se ativam ao longo do dia e o sono REM, momento em que as memórias não aproveitáveis seriam desligadas, expurgadas, da mente.

O livro apresenta uma série de pesquisas não só com humanos, mas com ratos, pássaros e outros animais, que comprovariam a ligação estreita entre a aprendizagem e o sono REM, por via desse mecanismo de seleção de memórias úteis.

Sidarta também nos fala da importância do esquecer, isto é, do não manter sempre disponível na mente toda a massa de experiências vividas, para que possamos justamente ter espaço e energia disponíveis para as demandas do presente. O que implica em dizer que a imensa maioria de nossas memórias fica preservada em estado latente (=inconsciente) no cérebro, somente sendo ativada quando alguma experiência do presente se liga com ela.

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Haveria muitas outras correlações à fazer (como alguns resultados que dão suporte à percepção freudiana de que as psicoses, o sonho e também o pensamento das crianças apresentam similaridades formais, ou a existência de um funcionamento “onírico” do cérebro – uma pré-seleção das memórias – inclusive durante o dia, como já queria Bion), mas o ponto que quero discutir aqui é como aprendizagem, memória e inconsciente se inter-relacionam.

Pois o que a neurociência começa a poder sustentar é que aprender envolve poder retirar da consciência o conteúdo da aprendizagem. Isto é, que aprender é, essencialmente, um processo inconsciente. Ou, mais exatamente: que para bem aprender algo, é necessário poder fazer a passagem entre um funcionamento consciente e um inconsciente.

Essa passagem envolveria o sono REM, e também a criatividade. Transformar uma experiência em memória teria a ver com “reescrever” essa experiência, o que acontece pela conexão da mesma com todo o repertório de nosso passado, assim como por uma função propriamente criativa da mente.

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Em termos práticos, essa passagem é facilitada pelo sono REM. Dormir (= processo inconsciente) parece estar intimamente vinculado com a preservação da memória.

Mas não basta dormir: como os sonhos traumáticos sugerem, é preciso poder “dominar” a experiência, isto é, elaborá-la, integrá-la, para que sua preservação seja útil. Um trauma que é relembrado incessantemente é diferente de uma memória preservada, mas que pode ser “esquecida” – isto é, que sai de cena, e dá espaço ao presente.

Como queria Bion, a diferença entre trauma e esquecimento parece depender da capacidade de transformar a experiência em algo nosso, algo assimilável, algo integrado ao nosso sistema simbólico. A novidade que a neurociência trás é o fundamento biológico dessa transformação, ligado ao sono REM e ao sonho. Quem conhece Bion sabe o quão próximos são esses achados neurocientíficos e as propostas do autor.

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Por fim, “aprender” seria poder registrar bem as experiências (memorizá-las), assim como poder recuperá-las bem, em função do presente (lembrar-se delas quando necessário). Ou seja, é o mesmo trânsito entre consciente e inconsciente, só que dessa vez na direção inversa.

Assim, enquanto ‘memorizar’ envolveria um afastamento do real, em direção ao subjetivo (às conexões com as memórias antigas), ‘lembrar’ envolveria um afastamento o subjetivo, em direção ao real.

O que equivale a dizer que o processo de aprendizagem envolve um bom trânsito com o inconsciente. Dito de outro modo: é necessário que as coisas se tornem inconscientes, para poderem ser utilizadas pela psique – o que, mais uma vez, coincide com a percepção de Bion.

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