A moda das neurociências

Estava vendo a entrevista acima com a neurocientista brasileira Suzana Herculano Houzel, e subitamente me dei conta de como as descobertas da neurociência não mudaram, em termos gerais, nossa percepção do humano.

O público em geral, no entanto, parece “sedento” por práticas legitimadas pelas neurociências, o que por vezes cria situações paradoxais de abandono de práticas consolidadas apenas porque a neurociência ainda não chegou lá.

A culpa disso, obviamente, não é das neurociências.

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Como a própria cientista comenta, se algo tem culpa nessa história, é o desejo que as pessoas tem de soluções simples para problemas complexos. E calhou de acontecer hoje que as neurociências são a “solução simples” da vez.

O que quero comentar, no entanto, é como as descobertas neurocientíficas em geral têm muito mais confirmado aquilo que já sabíamos por outros vieses, do que revolucionado nossa visão do funcionamento humano.

No video acima, por exemplo, Suzana comenta como o exercício, a prática de habilidades é fundamental para sua aquisição e consolidação. Comenta também sobre a importância da motivação para o efetivo aprendizado. Coisas que sempre soubemos, mas que agora foram reforçadas pelos achados da neurociência.

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O que, obviamente, é algo bom. Encontrarmos os fundamentos neuronais para intuições ou práticas que já adotamos nos dá um motivo a mais para manter essas práticas.

O problema começa quando passamos a achar que podemos adotar uma prática se ela for confirmada pela última ciência disponível.

O que acaba nos privando de muitas coisas boas, cuja comprovação pode ter vindo por outros caminhos.

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Tomando o exemplo da psicanálise: é claro que suas premissas e teorias são complexas e podem estar enormemente equivocadas. Nenhum psicanalista com consciência científica negará isso (penso eu).

Agora, o fato de certas hipóteses serem de difícil comprovação não invalida seu funcionamento prático. No caso da psicanálise, se alguns conceitos ainda não encontraram correspondências no funcionamento cerebral, isso não invalida o fato de que a experiência dos pacientes é transformada pela prática psicanalítica.

O mesmo ocorre com inúmeros âmbitos de nossa experiência cotidiana. Não sabemos uma enormidade de coisas sobre aspectos da realidade que, entretanto, continuamos manipulando. Um exemplo que gosto de dar é o da gravidade: ainda não sabemos 100% em que consiste, afinal, a gravidade, mas isso não nos impede de utilizá-la a nosso favor.

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No fim, pretender agir apenas legitimado pela ciência, seja qual ciência for, é ingênuo, pra dizer o mínimo, além de sugerir um certo desconhecimento do próprio método científico.

Afinal, é intrínseco à ciência ser uma busca inconclusiva, com achados sempre provisórios, mas – esperamos – melhor fundamentados.

2 Respostas para “A moda das neurociências

  1. legal. Me lembrei do livro “eu não sou meu cérebro” do Markus Gabriel, que trata um pouco dos equívocos de reduzir a nossa compreensão sobre nós mesmos a partir, unicamente, das descobertas das neurociências.

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