O corpo pensa

Na pg 69 do livro “A estranha ordem das coisas” (Companhia das Letras, 2018), Antônio Damásio escreve que

“Bactérias são criatura inteligentíssimas (…), ainda que sua inteligência não seja guiada por uma mente (…). Elas são capazes de sentir as condições de seu ambiente e reagem de maneiras que são vantajosas para a continuidade de sua vida. Entre essas reações, incluem-se comportamentos sociais elaborados. Elas podem comunicar-se entre si – não com palavras, é verdade, mas por meio das moléculas que elas usam para sinalizar.”

E mais adiante, na mesma página:

“Não existe sistema nervoso no interior desses organismos unicelulares, tampouco uma mente análoga à que possuímos. No entanto, elas tem variedades de percepção, memória, comunicação e governança social. As operações funcionais que sustentam toda essa “inteligência sem cérebro ou mente” (…)[foram adotadas pelos neurônios] muito mais tarde na evolução”

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Talvez não fique claro de início, mas Damásio está nos propondo uma revolução: uma torção na maneira como pensamos a inteligência.

Geralmente, aceitamos como dado que a inteligência é um efeito do cérebro. Isto é, que o cérebro é a única causa da inteligência. Logo, formas de vida sem cérebro não terão inteligência.

Isso, que parece tão lógico, é no entanto tão paradoxal! Basta pensar em como a vida teve que iniciar em formas muito rudimentares, e em condições muito mais difíceis do que aquelas que supomos quando pensamos em “cérebros”. Como a vida teria começado e se mantido – e, ainda mais, evoluído – se em seus primeiros passos não houvesse algum tipo de inteligência?

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Pois é nessa linha de questionamentos que se encaixa o livro do neurocientista português. Desafiando uma série de ideias preconcebidas em relação ao funcionamento dos organismos vivos, Damásio nos propõe pensar uma inteligência já bem estabelecida antes do surgimento do cérebro. Uma inteligência do corpo, das células.

Na visão do neurocientista, essa função inteligente passou a ser desempenhada por células cada vez mais especializadas, ao longo da evolução. Mas a inteligência não decorre dessas células especializadas. Pelo contrário, é a especialização das células que decorre da inteligência.

O que simplesmente desmonta uma série de percepções que temos sobre nossa posição na escala evolutiva.

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Em seus próprios termos, Nietzsche fazia uma crítica semelhante à de Damásio, ao sugerir que o homem tendia a se colocar como regra de funcionamento das coisas, de forma ingênua e orgulhosa. Isto é, o homem tenderia a medir a realidade com o ‘metro’ do humano, demasiado humano.

É difícil não pensar nisso, quando nos damos conta de que simplesmente assumimos que as nossas condições de vida e pensamento seriam as condições para toda a vida.

Basta olhar em qualquer livro de psicologa ou psicanálise, e encontraremos ali algum resquício mal disfarçado desse orgulho, que nos faria diferentes: nossa sociabilidade seria única; nossa inteligência seria única; nossa capacidade de comunicação seria única.

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E o suporte teórico, hoje, dessa posição ímpar supostamente ocupada pelo homem seria o cérebro. Por isso é tão importante nos purgarmos desse preconceito de que toda inteligência, comunicação e sociabilidade humanas só podem decorrer do sistema nervoso. Ao simplesmente fazer isso, toda uma nova visão nos é descortinada.

Passa a ser possível pensar que o corpo se comunica através de outros meios, que não a linguagem. Passamos também a poder pensar que a sociabilidade não precisa ser instaurada por uma estranha lei simbólica paterna, mas pode ser um funcionamento solidamente instaurado em nossos genes. Podemos ainda entender funcionamentos inteligentes em nosso próprio corpo que ocorrem totalmente à margem de consciência & pensamento.

Ao operarmos essa mudança no centro de gravidade do entendimento sobre o humano, conceitos como o de “aprendizagem” passam ao primeiro plano, praticamente colados a tudo que tenha a ver com o psicológico. Pois a grande função de nossa relação ao outro seria nos ensinar as formas da cultura para o desempenho de nossas potências corporais, sendo as doenças mentais expressões de um ensino mal efetuado, de uma estruturação de nossas potências corporais insustentável.

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Concluindo, é possível, como queria Nietzsche, que estejamos recém começando a perceber a fragilidade de nossos “gatilhos” cerebrais, isto é, o quão fácil nos deixamos levar pela vaidade ao chamar nosso reflexo nas coisas de “realidade”.

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