Patrimônio cultural vivo

Geralmente, associamos o termo “patrimônio cultural” à alguma coisa que é percebida como valiosa pelos outros, pelos estrangeiros. Assim, as ruínas gregas podem ser vistas como um patrimônio cultural da humanidade. Não quer dizer que os gregos valorizem aquilo, hoje.

No entanto, há muito valor na cultura viva dos povos.

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Pensei então de chamar essas formas culturais efetivamente vivenciadas por um grupo social de “patrimônio cultural vivo”. Com isso pretendo designar as formas concretas da cultura em uma dada população, sem necessariamente esse viés “turístico”, digamos assim – sem que a cultura precise virar negócio para ser entendida como “patrimônio”.

Eis alguns exemplos: meus avós sabiam plantar muitos tipos de verduras, frutas e flores. Sabiam as épocas certas, os cuidados, as podas. Sabiam também criar animais para consumo da família, sabiam costurar roupas, etc.

Perceba que não estou falando dos aspectos “belos” da cultura – que também fazem parte dela, claro. Meu foco aqui é na cultura efetivamente vivenciada pela população; o dia a dia dos fazeres de um povo.

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Se contrastarmos essa forma de viver dos avós com a nossa forma atual de vida, acho que as coisas ficam mais claras: porque, no tempo dos avós, havia uma relativa escassez de mercadorias prontas, ao lado de um grande conjunto de práticas auto-conservativas (plantar os próprios legumes, fazer a própria banha, etc). Do nosso lado, a equação se inverte: temos uma grande variedade de mercadorias prontas, e uma ausência quase total de práticas auto-conservativas.

É óbvio que ganhamos um tanto em termos de conforto, mas nem sempre se percebe que perdemos outro tanto em termos de autonomia. Perceba como a relação com o mercado se inverte: no tempo dos avós, o mercado era um complemento, para algumas coisas mais difíceis ou trabalhosas. Hoje, o mercado é essencial para nossa sobrevivência.

Em resumo, os avós tinham uma vida mais simples, mas mais independente. Nós temos muito mais sofisticação, mas dependemos quase absolutamente do que nos entregam pronto no mercado.

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Não estou dizendo aqui que “fazer o próprio risoto” não seja uma forma de cultura, por exemplo (em contraposição a comprar ele pronto). Mas quero chamar a atenção para esse momento anterior ao preparo da comida, que é o de efetivamente juntar os ingredientes que se vai usar. De onde eles vêm?

Especialmente porque, quando pensamos nisso, percebemos que não só dependemos inteiramente do mercado, como já não sabemos como fazer de outro jeito.

Isso é, perdemos nosso patrimônio cultural vivo. As formas de fazer comida, de subsistir, de plantar, estão se perdendo. E isso aumenta a nossa dependência.

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Quando colocamos as coisas em termos de dependência x independência, fica claro que a maneira capitalista, atual, só funciona na base da exclusão da maneira antiga, auto-conservativa, como chamei. Imagine se metade da população resolvesse voltar para o campo, retomando os modos antigos de subsistência? Uma parte grande do mercado capitalista deixaria de existir.

Mas, como pretendi mostrar, entendo também que uma boa dose de independência seria agregada a cada uma dessas famílias.

Por isso me parece tão importante preservar o “patrimônio cultural vivo” que ainda temos – porque ele está desaparecendo. E embora o mercado nos abasteça com um mundo de mercadorias muito mais vasto, elas são compradas ao preço da nossa independência.

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