Normalidade normativa

Ás vezes temos múltiplos caminhos para chegar à mesma conclusão, e isso acontece quando penso em como a noção de “normalidade” no contexto da saúde mental tende a ser uma noção normativa.

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Quando digo isso, estou entendendo que na noção de normalidade há mais do que apenas um diagnóstico objetivo, ligado à saúde ou doença mental; há também uma norma implícita, que insere um tanto de ruído na definição – um ruído moral.

Isso corresponde à parte não objetiva da definição de loucura, como argumentei em posts anteriores (link). Ou seja, haveria uma boa dose de moralidade, de imposição de normas sociais, na definição de doença mental.

O que torna difícil trabalhar com essa noção de forma absoluta. Creio que, como terapeutas, devemos nos identificar ao mesmo tempo com o paciente, e com a sociedade (o que ficará mais claro ao final do texto).

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Uma primeira forma de chegar nessa percepção poderia ser a evolutiva: se os comportamentos antissociais, a doença mental, o próprio roubo, assassinatos, etc, fossem soluções individuais apenas prejudiciais ao grupo, é razoável supor que elas já teriam sido excluídas por seleção natural.

Tanto mais que podemos imaginar que tais soluções eram mais frequentes ainda, em momentos menos normativos de nossa história – ou seja, talvez 90% ou mais do tempo de vida do “homo sapiens”.

O fato de tais comportamentos permanecerem entre nós sugere que, do ponto de vista da evolução, há algo de benéfico, ou ao menos de não tão prejudicial, nos mesmos.

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Fui levado a conclusões semelhantes quando trabalhei com presos, ao mesmo tempo em que mantinha, na clínica, alguns pacientes difíceis. O que percebi é que, tanto para os apenados quanto para alguns pacientes difíceis (isto é, cuja relação com as normas sociais é geralmente conflitiva), a “transgressão” é uma saída viável, geralmente menos custosa do que a saúde.

Nós, terapeutas, sabemos que as transgressões, em geral, tem um custo emocional alto; não são as melhores soluções possíveis. Mas essas pessoas, quase sempre, não estão em condições de escolherem as melhores soluções; elas ficam felizes com qualquer solução. E a transgressão é simplesmente mais fácil (o que explica indiretamente a posição da sociedade, ao marginalizar essa solução, dificultando-a um pouco).

Assim, o drogadito muitas vezes preferirá seguir com o vício, a ter que enfrentar suas questões emocionais ou as difíceis demandas da realidade; o fora-da-lei preferirá continuar no crime à mudar o rumo de sua história, etc. O que nem sempre percebemos, nós, os “dentro-da-lei”, é que tais transgressões são soluções para eles, e soluções que funcionam. (sem contar que nunca lembramos ou percebemos o quanto foi difícil para nós mesmos ficarmos dentro da lei; mas isso é outra história).

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Uma terceira linha argumentativa nos leva à psicanálise, e à Winnicott em especial, ao comentar que “quando apenas sãos, somos definitivamente pobres” – ou seja, quando sugere que tanto a normalidade quanto a saúde podem ser uma forma de sintoma.

Implícita, no comentário winnicottiano, está a ideia de que a vida humana é complexa demais para ser solucionada sem “resto” – isto é, resolvida, organizada, estruturada, de forma que tudo encontre um lugar certo, e nada sobre (ou falte).

Daí que ser “apenas sãos” implica, geralmente, no abafamento de impulsos e desejos menos “normais”, o que implica uma perda para a subjetividade. Algo definitivamente “pobre”, como diz o autor.

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Concluo retomando nosso percurso até aqui: partimos da ideia de que a noção de normalidade no contexto da saúde mental é uma noção mista, onde fatores objetivos convivem com fatores morais (normativos, mas necessários, do ponto de vista da sociedade); elencamos perspectivas que nos sugerem que a “não normalidade” pode ser uma forma de solução subjetiva, para algumas condições de vida (geralmente precárias do ponto de vista do desenvolvimento emocional), e concluímos, ancorados na psicanálise, que aspirar “apenas à saúde” como norma seria análogo a um empobrecimento subjetivo. O que, em conjunto, nos convida a entender a transgressão, a doença ou a imaturidade como contendo aspectos circunstancialmente positivos, a serem levados em conta numa definição mais ampla e menos normativa de “saúde mental”.

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