Sofrer pelo progresso, ou “crianças mimadas, adultos frustrados”

O desenvolvimento explosivo da mente humana trouxe inúmeras consequências para nossa saúde e bem-estar – muitas benéficas, outras nem tanto.

É sabido, por exemplo, que boa parte do problema atual da obesidade – uma das maiores causas de morte em alguns países – decorre do fato de que fomos programados para estocar calorias, já que o ambiente para o qual fomos projetados não tinha oferta excessiva de alimentos. Pelo contrário.

Alteramos o ambiente mais rápido do que aprendemos a lidar com ele. Em consequência, mantemos as demandas do ambiente antigo, num contexto de superoferta alimentar. Como resultado, engordamos.

O mesmo raciocínio se aplica à questão muito menos tangível da felicidade.

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Isso é algo que percebemos conforme envelhecemos: cada nova geração parece mais mimada. E com isso quero dizer: parece crescer num ambiente cada vez mais adaptado para ela – o que, certamente, tem seu lado positivo.

Mas o aspecto negativo, nem sempre notado, é que ao crescer num ambiente satisfatório demais – já explico essa qualificação -, a consequência natural passa a ser esperar que a vida toda decorra nos mesmos níveis de felicidade e adaptação.

O que nos leva, naturalmente a nos tornarmos adultos frustrados, já que aquele nível de adaptação e felicidade dificilmente se repetirá.

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O raciocínio é o mesmo na obesidade: fomos talhados pela natureza para sobreviver num ambiente hostil, onde a comida é escassa. Por isso comer é uma experiência ligada ao prazer, com poucas limitações naturais.

Da mesma forma, evoluímos para crescer num ambiente de relativas dificuldades. Com isso quero dizer: onde era necessário se deslocar, a pé, por grandes distâncias; onde a comida podia demorar, ou ficar pra outro dia; onde a chuva e o frio eram companheiras constantes.

Num ambiente assim, toda gratificação tendia a ser mais ‘saborosa’, por sua própria raridade. Imagine a alegria de um homem das cavernas, ao ter comida pronta, todo dia, na mesa; ou ter uma casa seca e quente, para ficar; ou poder descansar, deitar numa cama. Certamente ele ficaria imensamente feliz, com tudo isso.

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Mas para nós, que crescemos com essas coisas, elas não parecem conquistas; nós as percebemos como o “normal”, o óbvio, o mínimo.

O paradoxo é que, por estarmos tão acostumados com isso, não sentimos nenhuma felicidade associada. Quanto mais ricos e “afortunados” formos em nossa infância, menos valorizaremos as coisas. E o inverso é verdadeiro: para quem teve uma infância humilde, toda conquista trará mais felicidade.

Há, portanto, uma espécie de frustração ou sofrimento associado ao progresso: sofremos mais do que antigamente, justamente porque progredimos. Como sempre, deixamos escapar o aspecto psicológico das coisas, achando que é a cama, ou a comida, que nos faz felizes, quando não se trata do objeto, mas da nossa relação com ele.

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Tudo se passa como se uma dose de frustração e trabalho na infância fosse “compensada” por uma maior facilidade em sentir-se feliz na vida adulta – dadas as devidas condições, é claro.

O inverso também é verdadeiro: ao deixarmos as crianças crescerem num “conto de fadas”, fazemos com que elas se frustrem mais facilmente, quando maiores.

O caso se complica porque pais que vivem frustrados muito facilmente tendem a compensar isso nos filhos, privando-os de frustrações que poderiam ser sadias. E assim, o ciclo continua.

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A analogia com a obesidade segue reveladora: assim como a grande massa das comidas industrializadas foram o mal maior, mesmo quando elas se vendiam como emagrecedoras, grande parte das preocupações com a infância acaba derivando em uma superproteção que “infantiliza as crianças”, se posso dizer assim.

Ou seja, aquilo que, culturalmente, achamos que é remédio, muitas vezes participa do problema. Assim, pais preocupados demais em “fazer o correto” sempre, podem acabar sendo piores modelos do que pais que não se preocupam tanto com seus filhos, dividindo parte de suas dificuldades com eles.

Obviamente, tudo isso deve ser compreendido com cautela, pois assim como existem os excessos de cuidado, existem os excessos de maus-tratos, e nenhum dos dois é benéfico. Ocorre que nossa balança cultural está nitidamente pendendo para os extremos.

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