O que os pacientes dizem

A experiência clínica é uma coisa fascinante, não tanto pelas histórias malucas ou improváveis que a gente escuta, mas pelo aprendizado cotidiano de que realmente as pessoas não sabem o que dizem.

Ou poderíamos dizer também: elas comunicam mais do que sabem sobre si, e é sobre isso que quero falar hoje.

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Um paciente pode, por exemplo, falar longamente de como o mundo é injusto, de como as pessoas cobram dele, de como nada do que ele tenta fazer dá certo… e em tudo isso parecer estar reclamando, isto é, parecer estar contrariado com esse estado de coisas.

Mas conforme a gente vai conhecendo esse mesmo paciente, pode acontecer de a gente perceber que, no fundo, ele é que se cobra demais, e essa cobrança é que faz tudo parecer ruim e injusto.

Pra piorar, ele pode se mostrar extremamente dependente dessa cobrança, e até relutar em abandoná-la, mesmo parecendo contrariado com ela.

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Isso se repete todo dia, na clínica. Com o tempo, concluímos que simplesmente não dá pra levar o que o paciente diz ao pé da letra. Ou melhor: aprendemos que aquilo que está sendo dito, por mais claro que pareça, na verdade é um enigma, algo a ser decifrado. E que ainda não sabemos sobre o que o paciente está falando ao simplesmente “ouví-lo”.

Grande parte do processo terapêutico será dedicado à essa “tradução”, a esse esforço de interpretar as falas do paciente no contexto de seus atos e de sua história.

Ao final desse processo, teremos uma visão mais completa do paciente, uma visão que ele, paradoxalmente, nos comunicou sem saber, sem conhecer.

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Via de regra, essa visão mais completa implica integrar ao paciente aquilo mesmo que ele parece excluir, aquilo contra o qual se rebela ou que ele insiste em apresentar como seu contrário, como algo excluído de sua vida.

Isso é uma generalização, claro; mas ao procedermos assim, estamos, no fundo, ligando o sujeito àquilo que ele mesmo nos apresenta como seu inconsciente – ou, como dizia Jung, à sua sombra.

Eis uma forma objetiva de entender esse conceito tão complicado: ele é aquilo que nos condiciona, e que nós ajudamos a conservar, porém não reconhecendo, não sabendo. Sem assumir.

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Lacan insistia nesse ponto, e com razão, me parece: aquilo que falamos nos ultrapassa. Nós comunicamos ao outro mais do que nós mesmos sabemos sobre nós.

O fato é que a comunicação nos estrutura, e não ao contrário. Achamos que somos “nós” quem falamos, mas há na fala algo de anterior ao “Eu”, e que o condiciona. Na minha linguagem: a fala expressa um tipo de relacionamento com o outro que estrutura o “Eu”.

Cabe ao terapeuta, na psicanálise, nos aproximar desse nosso “eu excluído”, dessas condicionantes que nós ajudamos a conservar, dessa fala que falamos sem saber. Espécie de ambiente que recolocamos incansavelmente, mesmo quando parecemos estar fugindo dele ou evitando-o.

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