O inconsciente objetivo

O conceito de “inconsciente” em psicanálise já tem uma longa e complexa história, muito interessante para ser apenas resumida, aqui. Mas toda essa complexidade costuma andar de mãos dadas com uma certa fugacidade, algo de intangível, difícil de perceber. Por isso quero escrever hoje sobre algumas acepções do inconsciente enquanto perceptível, algo mais palpável e direto ao ponto.

Obviamente, trata-se de um recorte, de uma simplificação, que no entanto, pode ser útil.

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Uma primeira aproximação objetiva do inconsciente é entendê-lo enquanto todas as combinações ou associações possíveis entre nossas ideias. Sabemos que o cérebro trabalha por associação entre lembranças (Sidarta Ribeiro, “O Oráculo da Noite” 2019), mas costumamos dar atenção apenas a algumas delas.

Todas as demais, que o cérebro efetivamente associa, mas não utiliza, se tornam “inconscientes”, isto é, estão alí, virtualmente, próximos às lembranças efetivamente evocadas, mas abaixo do limiar da consciência.

Hoje já dispomos de mecanismos para acompanhar esse processo, que efetivamente acontece e pode, às vezes, influenciar na tomada de decisão, mais ou menos como queria Freud.

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Outra ideia é entender o inconsciente como aquilo que ajudamos a estruturar em nosso entorno, sem reconhecer. Sabe aquelas pessoas que sempre estão às voltas com os mesmos problemas? É possível que não seja apenas azar, mas que elas contribuam ativamente para esse estado de coisas.

A ideia aqui é que ajudamos a estruturar o ambiente no qual nos colocamos; essa estruturação, em geral, tem uma parte consciente, que percebemos e controlamos, e uma parte inconsciente, que não percebemos, mesmo quando claramente agimos para sua manutenção.

Poderíamos definir esse ambiente como o “estruturado não percebido”. Penso nele como uma nuvenzinha, uma sombra ou um fantasma, algo que carregamos conosco e alimentamos, que em geral é visto pelos outros, mas que nós mesmos não percebemos. A repetição é a chave para identificar esses problemas como inconscientes, diferenciando-os do puro acaso.

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Nessa mesma linha, temos também o “outro inconsciente”, isto é, o público, o ‘outro’ em geral, ao qual nos direcionamos quando falamos ou escrevemos.

Pense que você vai escrever um texto para ser lido num grupo. A forma com que você imagina esse grupo, ao qual endereça o texto, diz algo sobre você mesmo. É um condicionante da sua forma de ser, que você provavelmente desconhece. Um “outro” que é inconsciente, mas ajuda a definir como você se comportará, em cada situação.

Em termos da neurociência, poderíamos falar em “teoria da mente”, isso é, a ideia de que cada um de nós tende a criar uma “teoria” sobre a mente do outro, sobre como ele funciona, pensa, sente, etc. Obviamente, apesar dessa teoria pretender explicar o outro, ela tem muita ligação conosco.

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Concluo, assim, essa tentativa de apresentar noções objetivas de inconsciente “pero no mucho”: o inconsciente como potencial associativo; como ambiente estruturado não percebido e como outro teórico ao qual endereço minhas falas.

2 Respostas para “O inconsciente objetivo

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