Sobre sonhos. Freud & Jung.

Sonhar é uma experiência interessante. Mesmo hoje, quando tantas coisas nos desviam o olhar dessa experiência, as vezes acordamos com aquele sentimento bom de ter sonhado tal coisa, a ponto de não querermos acordar… O dia vem, então, com suas demandas incessantes, e o sonho fica pra trás. Mas como é bom poder deitar novamente, ao fim do dia, e reencontrar aquela sensação…

Há toda uma história da influência dos sonhos na vida humana, mas hoje gostaria de falar da minha maneira pessoal de entendê-los.

***

Coube a Freud, creio, trazer a interpretação dos sonhos para perto de algo científico. Ele dizia que “o sonho é a via régia para o inconsciente”, porque em suas interpretações via atuando, nos sonhos, as mesmas forças que definiu como características do funcionamento inconsciente.

Meu uso dos sonhos começa aí, pois eu também entendo que, nele, atuam forças que não são conscientes, não são dirigidas. O “Eu”, o ego, no sonho, costuma ser levado pelos “acontecimentos” da narrativa, mais do que os dirigir. Mas há graus nisso, assim como parece haver tipos diferentes de sonho.

Se entendermos o conceito de “inconsciente” de Freud como algo ligado ao corpo, diria que minha visão é basicamente freudiana. O problema é que Freud mesmo tendia a usar os sonhos de seus pacientes como uma forma de acessar sua vida privada – o que já não é exatamente falar de seu “corpo”. Acredito que Freud tenha razão, porque a interpretação do sonho tende a ser pessoal – mas o sonho, em si mesmo, não precisa ser.

***

Penso que a interpretação freudiana “dilui” o sonho em termos pessoais, por assim dizer, ao ligar cada parte dele às associações que vão surgindo ao sonhador. Mas o sonho “bruto”, não interpretado, seria uma experiência do corpo, como disse, e não do sonhador. O que pertenceria a esse último seria apenas a interpretação.

Com isso quero sublinhar que o sonho “pertence” ao inconsciente, mais do que ao sujeito. Mas o que quero dizer, aqui, com “inconsciente”?

Quero dizer, basicamente, a visão do corpo, ou, o que pode ser mais claro, a visão da espécie.

***

Há uma teoria (que Freud conhecia) de que, do ponto de vista biológico, importa mais a preservação e expansão dos genes sexuais do que dos indivíduos em si mesmo. Quase como se nossa história de vida só importasse como uma maneira de expandi-los ou enfraquecê-los. Nós seríamos escravos dos nossos genes; simples veículo de seu aprimoramento, por assim dizer.

Esse é mais ou menos o ponto de vista no qual me coloco, quando penso os sonhos. Entendo que eles expressam o ponto de vista desse corpo supra-pessoal, não individual, não egóico. Ou melhor: eles testemunham o encontro entre ferramentas de percepção e pensamento que são supra-pessoais com a história de vida de cada um.

Como se oscilassem entre esses dois extremos, as vezes os sonhos são mais ligados ao pessoal, ao singular, enquanto outras vezes traduzem o ponto de vista desse corpo supra-pessoal.

***

Quem esteve mais próximo dessa teorização do sonho como supra-pessoal foi Jung. Sua ideia de “arquétipos’, no fundo, é isso: ideias do corpo, da espécie, que surgem para os indivíduos. Em Jung está mantida, creio, a tensão entre os dois extremos que mencionei, mas alguns de seus continuadores tenderam a valorizar mais o supra-pessoal (o arquetípico) nos sonhos, o que me afasta deles.

Minha leitura, então, é uma mistura dos pontos de vista de Freud e Jung (com algumas contribuições de outros pensadores, como Groddeck e Bion): entendo o sonho em oscilação entre os pontos de vista do corpo e do sujeito, cabendo ao desejo pessoal, quase sempre, “filtrar”, estruturar, o sonho em seus aspectos corporais.

(O desejo estrutura o sonho menos em termos de repressão do que em termos de inteligibilidade. Muitas vezes experimentamos o sonho “cru”, sem emendas, sem disfarces, mas para falarmos dele, para trazê-lo à consciência, forçamos uma inteligibilidade que ele não tem. Inserimos a lógica do corpo na nossa lógica, e com isso “pessoalizamos” uma experiência que, quando vivida, não trazia necessariamente essa pessoalidade).

***

Concluo mencionando a importância que pode ter o sonho para o indivíduo – mesmo que sonhar seja, na origem, uma experiência supra-individual. Pois, se as coisas são como apresentei, sonhar nos permite entrar em contato com uma sabedoria trans-geracional; um ponto de vista formado da soma de milhares de experiências que moldaram o nosso corpo, e, portanto, um ponto de vista que merece ser considerado.

Não é que devamos seguir o sonho ao pé da letra. O corpo costuma apresentar suas ideias em outra lógica, em outra linguagem. Nem sempre conseguimos entender o que o sonho quer dizer.

Mas a tradução é possível, e é fascinante embrenhar-se nas tentativas de aprender essa “segunda língua” que, paradoxalmente, todos sabemos em nível infra-consciente.

Para quem se interessar por um resumo das ideias de Freud e Jung sobre os sonhos, mais uma atualização daquilo que a neurociência vêm descobrindo sobre isso nos últimos anos, recomendo o livro de Sidarta Ribeiro: “O oráculo da noite”, publicado no Brasil pela Companhia das Letras (2019).

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s