A negação do desejo e sua complexificação

Quem estudou Nietzsche conhece sua tese de que nossa cultura, especialmente a partir do cristianismo, teria tendido a negar o desejo como uma forma de salvação, purificação ou ascese – o que Nietzsche aproximava de uma doença.

Isso pode ser verdade em algum nível, mas é preciso dizer também que houveram práticas culturais muito mais antigas que o cristianismo onde uma aparente negação do desejo visava, no fundo, a uma experiência desejante mais ampla e complexa.

Negar o desejo para intensificá-lo? Vamos falar um pouco sobre isso.

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Uma das mais antigas práticas onde encontramos algo como “negação do desejo” vem do tantra. O tantra foi – e é – um fenômeno cultural complexo, que não abordarei aqui, mas que nos interessa por ser um exemplo de como a negação do gozo / orgasmo no ato sexual foi utilizada para intensificar esse mesmo gozo.

O praticante do tantra sabe que, já de início, há um desincentivo, um deslocamento da atenção em relação ao gozo – que não é impedido ou proibido, mas complexificado – deixado à espera. O foco da consciência é colocado nos processos anteriores ao gozo – no toque, no cheiro, nos sons – e o controle está mais a serviço do distanciamento em relação ao gozo, do que de sua procura.

Com isso, abrem-se outras possibilidades para o desejo, que pode se espalhar pelo ato sexual em todas as suas variantes e componentes. Retoma-se algo do “perverso polimorfo”, de Freud. Ao final, alcança-se o orgasmo, mas quase sem querer, como um resto ou resíduo de um processo maior.

Chega-se ao gozo andando de costas, por assim dizer. Não era essa a meta.

Nisso tudo, o que nos interessa é que o praticante do tantra, em geral, se percebe com uma vida sexual mais rica, e não mais pobre. A aparente ‘negação’ do desejo, a desvinculação do ato sexual com o gozo, acaba propiciando uma riqueza maior de experiências, o que termina por construir uma experiência de gozo amplificada.

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Esse é o meu ponto: a aparente negação do gozo é um caminho para que o gozo aconteça de forma mais intensa, mais completa. Se analisarmos bem, não é exatamente o gozo que é negado, e sim o seu acesso muito direto, muito rápido. Ou ainda, a sua valorização exclusiva pelo sujeito.

Usando uma fórmula, poderíamos dizer que o que é negado, no tantra, não é o gozo em si, mas sim a submissão do sujeito ao gozo.

Acredito que o mesmo raciocínio possa ser aplicado ao budismo: quando nele se fala em suspensão do desejo, em abdicar do controle, em viver de forma não direcionada, entendo que está sendo proposta uma nova posição subjetiva diante dessas tendências: uma posição que procura dominar aquilo mesmo que nos domina – o desejo, o controle, a intencionalidade -, criando uma relação mais livre entre o sujeito e seu próprio funcionamento.

É bem mais ou menos o que Foucault abordou em sua “Hermenêutica do sujeito”: em muitas culturas, e bem antes do surgimento do cristianismo, constituíram-se práticas de relação do sujeito consigo mesmo que objetivavam complexificar e expandir a experiência subjetiva, mesmo quando operavam por meio da suspensão ou negação de algo.

Mas o objetivo dessas práticas, como pretendi mostrar, era menos negar do que complexificar, e até mesmo, intensificar.

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Numa palavra, a negação era um meio, e não um fim. E um meio para ampliar a experiência do sujeitos, e não para erradicá-la. Seja em relação ao sexo, ao desejo ou à intencionalidade, o foco me parece estar em deslocar o controle consciente e abrir espaço para a espontaneidade inconsciente do sujeito.

Todas essas práticas, afinal, se caracterizam por uma entrega, um abdicar do controle consciente sobre os processos – mais ou menos como na “Associação livre” de Freud. Impossível não reconhecer na prática psicanalítica um eco dessas propostas.

Esquematicamente, diria que em tudo isso a “negação” é apenas um meio para libertar o desejo de seu controle consciente, em direção à uma experiência mais solta, menos dirigida, mais inconsciente – e, portanto, mais completa (ao nível do Self).

É discutível se o cristianismo manteve essa mesma relação entre consciência e inconsciente, mas me parece inquestionável que para diversas outras tradições, negar a consciência foi um caminho para uma existência mais alta, onde o corpo e o inconsciente participavam de forma plena.

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Um belíssimo exemplo do que quero dizer encontra-se no livro “A arte cavalheiresca do arqueiro Zen”, de Eugen Herrigel, que narra as experiências do autor – um ocidental – para aprender uma arte oriental tratada de forma incrivelmente inconsciente pelos seus praticantes (aos nossos olhos, claro).

Há uma passagem onde o então aluno perde as esperanças na arte e está prestes a largar tudo. O mestre arqueiro Zen, então, o convida para uma cabana totalmente fechada, à noite, e dispara três flechas num alvo à distância, acertando os três tiros – detalhe, sem poder ver o alvo, já que era noite.

A imagem é clara: não se trata de ver – com a consciência, diríamos -, mas de permitir uma ressonância inconsciente entre o arco e o alvo, de maneira que – são palavras do livro – é o arco quem atira, e não o sujeito.

Definitivamente, temos muito a aprender com eles –

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