A nova psiquiatria: reflexões sobre a indústria

Em seu livro “O oráculo da noite” (2019, Companhia das Letras), Sidarta Ribeiro argumenta que

“É preciso reconhecer a crise da supermedicalização na psiquiatria. Apesar de serem corriqueiramente indicados para tratamento diário sustentado por meses, anos e décadas, os antidepressivos encontrados nas farmácias apresentam efeitos positivos bem modestos, pouco acima dos obtidos com placebo e com eficácia comprovada apenas nos dois primeiros meses de tratamento (fonte1)” (op cit, pg 341/2)

O que não deixa de ser chocante por si mesmo. Mas a sequência é ainda mais surpreendente:

“Esse quadro decepcionante contrasta, por exemplo, com os efeitos da psilocibina, principal composto psicoativo do cogumelo Psilocybe cubensis, que reduz a depressão e ansiedade por vários meses quando administrada em duas does durante sessões de psicoterapia (fonte2)” (idem, pg 342)

Mal tivemos tempo para entender ou acreditar que o efeito dessa droga natural é realmente tão melhor do que sua contraparte industrial, e Sidarta continua:

“Quando o sofrimento psíquico está relacionado a traumas do passado (…), a melhor solução clínica parece ser a psicoterapia auxiliada por MDAM (fonte3). Esse é o princípio ativo do ecstasy, que provoca intensa liberação de serotonina (…). O efeito psicológico de uma dose adequada de MDMA, com as pessoas certas, no local certo, com a luz correta e a música idem, é extremamente agradável (…). Esse estado de graça chega a durar várias horas e pode persistir sutilmente por vários dias após a ingestão da substância”. (idem, pg 342)

Nesse ponto, pode ser interessante mencionar que Sidarta Riberio é um neurocientista brasileiro reconhecido entre seus pares, com importantes trabalhos publicados em nível internacional. As fontes que ele utiliza no livro são exclusivamente publicações de renome; pesquisas sérias, publicadas nas melhores revistas científicas do mundo.

Essa argumentação “de autoridade” parece necessária pelo fato de o tema ser espinhoso. Há muito preconceito em torno do tema “drogas psicoativas”, e uma surpreendente tolerância em relação às drogas industrializadas. Talvez por isso, como prossegue Sidarta,

“O MDMA foi usado para terapia de casais nos anos 1970, mas foi proibido por Nixon apesar de ser mais seguro do que quase todas as principais drogas psicoativas (fonte4). Ao contrário de outros psicodélicos, o MDMA não provoca grandes alterações perceptuais nem alucinações na maior parte das pessoas. Quando administrado a pacientes traumatizados (…), o MDMA apresentou resultados positivos impressionantes. Em maio de 2018 foi publicado na prestigiosa revista The Lancet Psychiatry o resultado de um rigoroso ensaio clínico dos efeito do MDMA (…). Os resultados mostraram que duas sessões de tratamento com MDMA e psicoterapia foram suficientes para reduzir significativamente os sintomas do estresse pós-traumático, mesmo quando medidos um ano após o tratamento (fonte 5)” (ibidem, pgs 342/3)

***

Paro por aqui. Os dados falam por si mesmos. O número de doentes psiquiátricos não tem diminuído – tem aumentado. E embora as razões para isso provavelmente sejam variadas, isso definitivamente não conta a favor das drogas da nossa indústria.

Mas continuamos aceitando as mesmas com uma tolerância que faria até os anjos duvidarem. E quanto às demais drogas – aquelas que, como menciona Sidarta, sempre foram utilizadas – somos intolerantes como o diabo.

Sem dúvida que essa discussão é muito maior do que isso. Os fatores que fazem da doença mental um foco de exclusão social – o que não ajuda em nada, aliás – vão muito além de qualquer remédio, velho ou novo. Mas não deixa de ser revoltante pensar que há uma indústria imensa florescendo na inércia cultural de nosso tempo – que enquanto ela se reinventa, há máquinas e publicitários trabalhando para que as coisas permaneçam nos mesmos lugares. E utilizando o preconceito pra isso.

Haja chá de cogumelo!

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Bibliografia

Aqui, as fontes citadas no livro:

Fonte1: Cipriani, A. e outros. “Comparative Efficacy and Acceptability of 21 Antidepressant Drug for the Acute Treatment of Adults with Major Depressive Disorder: A Systematic Review and Network Meta-Analysis”. The Lancet 391, pp. 1357-66, 2018

Fonte2: Griffiths, R. R. e outros. “Psilocybin Produces Substantial and Sustained Decreases in Depression and Anxiety in Patients withLife-Threatening Cancer: A Randomized Double-Blind Trial”. Journal of Psychopharmacology 30, pp. 1181-97, 2016; Carhart-Harris, R.L. e outros. “Psilocybin with Psychological Support for Treatment-Resistant Depression: an Open-Label Feasibility Study”. The Lancet Psychiary 3, pp. 619027, 2016; Ross, S. e outros. “Rapid and Sustained Symptom Reduction Following Psilocybin Treatment for Anxiety and Depression in Patients with Life-Threateniing Cancer: A Randomized Controlled Trial”. Journal of Psychopharmacology 30, pp. 1165-80, 2016; Carhart-Harrs, R.L. e outros. “Psilocybin with Psychological Support for Treatment-Resistant Depression: Six-Month Follow-Up”. Psychopharmacology (Berlim) 235, pp. 399-408, 2018.

Fonte3: Bouso, J.C.; Doblin, R.; Farré, M. Alcázar, M.A. e Gómez-Jarabo,G. “MDMA-Assisted Psychotheray Using Low Doses in a Small Sample of Women With Chronc Posttraumatic Stress Disorder”. Journal of Psychoactive Drugs 40, pp. 225-36, 2008; Mithoefer, M.C.; Grob, C. S. e Brewerton, T.D. “Novel Psychopharmacological Therapies for Psychiatric Disorders: Psilocybin and MDMA”. The Lancet Psychiatry 3, pp. 481-8, 2016; Wagner, M. T. e outros. “Therapeutic Effect of increased Openness: Investigating Mechanism of Action in MDMA-Assisted Psychotherapy”. Journal of Psychopharmacology, 2017; Mithoefer, M.C. e outros. “3,4-Methylenedioxymethamphetamine (MDMA)-Assisted Psychotherapy for Post-Traumatic Stress Disorder in Miliary Veterans, Firefighters, and Police Officers: A Randomised, Double-Blind, Dose-Response, Phase 2 Clinical Trial”. The Lancet Psychiatry 5, pp. 486-97, 2018.

Fonte 4: Nutt, D.J.; ing, L.A.; Philips, L.D. e Independent Scientific Committee on Drugs. “Drug Harms in the UK: A Multicriteria Decision Analysis”. The Lancet 376, pp. 1558-65, 2010.

Fonte 5: Mithoefer, M.C. e outros, op. cit, 2018.

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