Um olhar sobre a religião

Não sou uma pessoa religiosa, mas aceito ter uma “quedinha” pelo espiritual ou místico na existência. Isso me faz olhar para a religião ao mesmo tempo do lado de fora e do lado de dentro, sentindo suas benesses e seus compromissos. Neste post, quero falar um pouco disso: da religião sob um olhar não dogmático, desobrigado de concordar ou renegar.

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Em primeiro lugar, acho que a religião não é uma experiência intelectual: não se chega à religião pelo pensamento. Não há “argumentos” que vão convencer o ateu a ser religioso, nem, da mesma forma, deveria o religioso deixar de sê-lo em função de algum argumento, apenas.

Infelizmente, no entanto, nossa cultura tende faz muito tempo a “intelectualizar” tudo, e isso bagunça as coisas. É como você querer encontrar razões para suas paixões: elas até vão estar lá, mas elas claramente seguem a paixão, legitimam a paixão – e não o contrário.

E a religião se assemelha mais à uma paixão – no bom sentido, não vai crítica nisso – do que à uma conclusão intelectual pura. A religião está mais para uma emoção do que para uma ideia, digamos assim. Nada impede que busquemos razões para justificar nossa inclinação, nossa emoção. Só entendo que as razões vêm depois; são secundárias.

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Da mesma forma, a religião não é uma experiência pontual, que começa e termina num instante do tempo. Ela é uma experiência contínua, mais ligada à uma ética, à uma forma de viver a vida por inteiro, do que a um momento especifico.

Nisso incluo, também, a ideia de que a religião é uma experiência, isto é, algo que tem que ser vivido, tem que ser parte da vida cotidiana. Não entendo religiões que se “resumem” a um momento específico da vida, como a morte, ou o casamento, etc. Também não entendo religiões apenas como “moral”, regras de conduta, exemplos, etc (apesar de isso constituir boa parte da religião para algumas pessoas, mas voltarei nisso).

Finalmente, acrescentaria que a religião me parece próxima de uma disposição de espírito, algo que poderíamos traduzir com a palavra confiança: quem efetivamente está vivendo uma religião tende a ter mais confiança no futuro, na vida em geral, independentemente das razões para isso.

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Juntando tudo, fico pensando se a religião não seria a expressão de uma tendência natural humana, como a fome ou o sono. Um impulso que nos faria buscar a segurança de uma crença compartilhada com o grupo, ou até, apenas, a confiança nesse grupo.

Isso me parece essencial: não há religião “sozinho”; todo religioso, de um jeito ou de outro, acaba retornando algo à sociedade (por amor, por dever religioso, por caridade, por irmandade, etc). Mesmo os monges que se retiravam para o deserto serviam como exemplos, como mártires. Ao negarem ‘o mundo’, eles se referiam ao mundo, se posicionavam.

Esse aspecto grupal é, provavelmente, parte do que a religião tem de melhor, mas também de pior.

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Isso porque todo funcionamento grupal tende a ser mais grosseiro, mais cru, menos elaborado, do que sua contraparte individual. O indivíduo, sozinho, muitas vezes é razoável, prudente, nem que seja pelo medo. O funcionamento em grupo apaga essa prudência e tende a nos transformar – pra pior.

Freud mostrou isso muito claramente em “Psicologia de grupo e análise do ego”, e infelizmente a realidade nos apresenta provas renovadas desse “poder simplificador” dos grandes eventos sociais. Acredito que as redes sociais são provas suficientes do que digo.

Vale dizer: é provável que as religiões, ao crescerem para além de um certo ponto, precisaram se resumir à fórmulas prontas, à autoridade pura e simples, à meia dúzia de “mandamentos”, para se tornarem compreensíveis e utilizáveis para o grande grupo. E é isso que criticamos no cristianismo, por exemplo, mais do que o “religioso” em si.

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Crescer, se difundir, alcançar mais pessoas, inevitavelmente implica em simplificar. Não apenas as ideias tendem à um ponto médio, mas também os ideais, e até mesmo os produtos. Tudo aquilo que alcança um grande número de pessoas é popular, nos dois sentidos (têm grande alcance, e é barato, não exclusivo, pouco diferenciado). E o mesmo vale para a religião.

Há caminhos alternativos, é verdade. Penso nas religiões que, como o Tao Te King, escolheram a estratégia dos mistérios: falar pouco, não definir as coisas, não simplificar, deixando espaços e sugestões para que cada um complete a imagem do religioso a partir da sua própria experiência.

Isso implica uma certa tolerância com o vazio, o não saber – algo que é geralmente tematizado por essas filosofias orientais, e algo que nossa compulsão (ocidental) ao saber esvazia. É como se o oriente tivesse encontrado um ponto médio entre o sentimento religioso, tal qual comentei acima, e a necessidade (secundária) de uma crença, de uma ideia, para unificar e definir o grupo, em contraste com outros. Nós preferimos debater ao infinito as razões, e deixar o sentimento de lado. Com isso, a experiência religiosa enfraquece –

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