O social do lado de dentro

Em linhas gerais, Freud entendia que o social acontecia em oposição ao individual. Tanto é assim que ele endossava as palavras de Hume, dizendo como ele que “o homem é o lobo do homem”. Por fim, que para o indivíduo, o “outro” é sempre um objeto, algo a ser usado sem muita consideração.

Esse tipo de leitura encontra suporte em muitos comportamentos humanos. Qualquer um que conheça um pouco de história concordará que o ser humano pode ser descrito como Freud e Hume o fizeram. Ao mesmo tempo, essa visão permite manter uma coesão interna com a teoria geral das pulsões em Freud, as quais sempre foram pensadas em termos de conflito entre um ‘dentro’ e um ‘fora’.

Mas o que dizer das teses de Damásio, quando postula (com suporte em dados empíricos) que a vida em sociedade não seria uma imposição da cultura, mas um fato biológico?

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A leitura de Damásio meio que bagunça toda a estrutura freudiana. Pois se há, no indivíduo, uma espécie de “pulsão social”, não é exato pensar a relação indivíduo x sociedade apenas em termos de conflito – pois algo do social está também dentro do sujeito.

A própria analogia entre consciência e sociedade versus inconsciente e corpo perde seu chão, pois o social também estaria do lado do inconsciente – enquanto pulsão / corpo.

Em resumo, somos obrigados a pensar fora da estrutura simples que opõe esses termos, sem esquecer que a ideia de conflito entre instâncias parece se justificar.

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Uma maneira de fazer isso seria pensar que há, realmente, algo como uma pulsão social, um direcionamento biológico para a vida em sociedade. Esse “instinto social”, como todo instinto, precisaria ser formatado pela cultura. Toda a questão, então, seria encontrar uma formatação na qual os outros instintos não estivessem excluídos.

Por exemplo, ao lado desse hipotético instinto social, teríamos também um instinto agressivo, uma necessidade – preferencialmente restrita a certas ocasiões – de agredir nosso semelhante. Esses dois instintos precisariam conviver e encontrar espaço de expressão, mesmo sendo antagônicos um em relação ao outro.

A sexualidade, mas também a competição por comida, também poderiam entrar em antagonismo com o impulso social.

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A estrutura humana não seria, então, antagônica em termos absolutos, mas apenas em termos relativos, Isto é, apenas na medida em que a cultura exclua ou rejeite algum impulso em detrimento de outros.

A maioria dos animais sociais apresenta essa mesma posição complexa em relação ao “outro”: assim como ele é companheiro de sociedade, é também um opositor na competição por comida ou sexo, e os animais vivem bem essa dualidade, tendo espaços de convívio ao lado de espaços de luta.

Porque conosco seria diferente?

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A questão, então, do “conflito” entre sociedade e indivíduo passaria a estar do lado da cultura, das formas concretas de gerenciar e permitir a expressão dos impulsos, e não do lado da natureza.

O que muda totalmente a questão, e nos abre os olhos para a perspectiva de que talvez nossa cultura esteja implicada na maneira como vivemos o conflito sociedade x indivíduo.Vale dizer: que poderíamos viver essa diferença de forma muito menos conflitiva, muito menos central.

Mas parece haver algo muito essencial em fomentar essa dualidade, esse conflito, no nosso panorama cultural. Algo que é muito mais nuançado, no oriente. Mas voltaremos ao tema.

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