É possível ser mimado e malcuidado ao mesmo tempo?

Já disse mais de uma vez por aqui, mas é necessário repetir: nós, nossa cultura, tende a não perceber a importância do subjetivo nas coisas, buscando substituir isso por algo objetivo – o que quase nunca funciona.

Hoje quero comentar mais um exemplo desse esforço “DES-subjetivante”, centrado nas ideias de “cuidado excessivo”, ou “mimo”, que nos caracterizaria.

***

Começo chamando a atenção para o fato de que as pessoas, em geral, quando reclamam “dessa geração mimada”, estão falando de aspectos objetivos do comportamento. Seja porque os pais não colocam limites para os filhos, seja porque oferecem ajuda ou possibilidades demais, etc. Nada a objetar quando a isso.

Agora, esse é apenas UM lado da questão. E nas questões envolvendo o humano, há sempre pelo menos dois lados – e esse “segundo” lado é o subjetivo, o qual, pra variar, não é levado em conta.

O aspecto subjetivo, nesse caso, seria pensar como esse ‘cuidado excessivo’ é experienciado pela criança. Isso é fundamental porque, como veremos adiante, muda toda a questão.

***

Nesse contexto, a clínica vem em apoio ao meu argumento, mostrando como tem sido cada vez mais frequente encontrar sujeitos que foram, ao mesmo tempo, excessivamente cuidados – mimamos, como dizem – e também malcuidados.

Se apenas o aspecto objetivo contasse, isso seria impossível. Mas é isso que vemos na clínica, e a explicação é simples: por mais que objetivamente as crianças estejam sendo bem cuidadas, sua experiência subjetiva é outra, muito mais fragmentada e frágil.

É como querer substituir o interesse dos pais pela criança com presentes; isso nunca dá certo.

***

Fazendo uma analogia, digamos que toda relação humana é como uma dança: não importa apenas como cada um dos pares dança, individualmente, mas sobretudo como eles conversam e se adaptam um ao outro para que a dança aconteça.

Perceba que a dança só funciona quando cada um dos pares consegue acolher o passo do outro no contexto de seu próprio passo. Eu posso dar um passo “correto” para a direita, mas se meu par não me acompanhar nisso, a dança não acontece. É melhor um passo “errado” para a esquerda que seja acompanhado pelo par, do que um passo correto, mas dissociado, sem mutualidade.

“Mutualidade” talvez seja o melhor termo para resumir o que quero dizer: em toda relação humana, é preciso levar em conta como o outro está vivendo os meus próprios “passos”; ou, nos meus termos, é preciso levar em conta o aspecto subjetivo.

E é isso que está nos faltando: mutualidade nas experiências. Não falo de nada além de viver experiências com os filhos – boas ou más, o importante é dividir a experiência, “dançar” com as crianças. Ou seja, ter um tempo efetivamente vivido com eles, mesmo que seja um tempo vazio. Pra retomar a metáfora, importa menos o passo em si mesmo, do que o fato dele ser mútuo, ser dividido, ser uma experiência conjunta.

***

Dito isso, creio que fica claro como podemos estar mimando nossas crianças e, ao mesmo tempo, deixando de cuidá-las bem. Não é apenas o aspecto do limite ou da autoridade que está em jogo aqui; é muito mais o apagamento da importância da experiência do outro, que vem se consolidando em nossa cultura.

Como consequência, nem sempre damos ouvidos ao apelo – subjetivo – da criança mimada, que reclama que as coisas ‘não estão bem’ – porque achamos que “tudo está bem” do lado objetivo.

Mas sim, as duas coisas podem coexistir. É como a crise de superalimentação atual, que é efeito de um excesso de carboidratos e comidas processadas, pouco nutritivas, que nos deixa ao mesmo tempo gordos e subnutridos. Estamos superprotegendo nossas crianças, o que as priva de viver frustrações saudáveis, ao mesmo tempo que as frustramos demais nos aspectos subjetivos, o que as deixa duplamente fragilizadas.

2 Respostas para “É possível ser mimado e malcuidado ao mesmo tempo?

  1. Parabéns Rafa, extremamente pertinente os aspectos abordados..
    Exercer a parentalidade é realmente um desafio, mas fazê-la com olhos de amor e cuidado, levando em consideração as vontades e as emoções da nossa criança, é muito possível.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s