Do ponto de vista da vida

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[as vezes as ideias me assaltam,

e tenho vergonha das palavras que ofereço para dar-lhes forma. 

as vezes acho que o problema está nas palavras]

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Já sabemos que o homem, nosso olhar, tende a humanizar tudo, fazendo das coisas ‘nossa imagem e semelhança’. Mas se avançarmos um pouquinho por sobre o ego, o que veremos? Estaremos então em outra paisagem. 

Nossos pontos de referência não funcionam aqui. 

Nossa própria individualidade – como sujeitos, como espécie – são apenas ilusão, perspectivas. 

Um “canto”, por demais estreito. 

Estaremos olhando as coisas desde fora de nós mesmos. Estaremos olhando para as coisas do ponto de vista da vida.

***

… e como tudo muda! Como tudo transparece, difere, se renova, sobre nova luz!

Até mesmo a morte – que sentido tem a morte, quando não a pensamos do ponto de vista do indivíduo?

A morte não se opõe mais à vida, mas é parte da vida, do processo afirmativo da vida, um momento de sua evolução e diferenciação.

A vida escolheu a morte, se posso dizer assim (palavras humanas para coisas além-do-homem…).

Ela poderia ter continuado seu processo através dos mesmos organismos, sempre. Mas então, evoluir seria muito mais difícil. 

Imagine amebas com a experiência acumulada de bilhões de anos… 

seriam amebas geniais, certamente… mas ainda amebas.

(se bem que alguns de nós…)

***

A vida escolheu a morte do indivíduo, para que novos e melhores indivíduos pudessem surgir. 

Ela acumulou a experiência de cada geração em novos genes, passados adiante conforme o sucesso de cada um, variando e se diversificando de tantas formas…

Como é ridículo o homem que olha a vida e diz: “eis uma imagem de mim!” 

A vida é MUITO maior que tu, pequena criatura… A vida já foi célula, já foi planta, já foi pássaro, dinossauro, peixe… 

já foi, e continua sendo, tantas coisas ao mesmo tempo, tanta energia e experiências acumuladas…

Ah, só de imaginar o que a vida sabe, depois de tanto ver…

***

Não é impossível que nós, nosso cérebro, sejamos apenas um reflexo da liberdade potencial que o movimento vivo sente e adensa dentro de si

Nós pensamos e agimos, achando que o fazemos por nós. No fundo, é a vida que nos anima, nos nutre, nos utiliza… e nos despacha, ao final

(não menosprezemos nosso papel no processo; somos bagaço e estrume, mas somos parte de um processo à beira do impossível)

A vida olha através do nosso olhar. A vida pensa, inventa, acasala, constrói. É ela quem montou essa máquina que bate em teu peito, e é ela quem vai desligá-la um dia, para que novas e mais perfeitas construções continuem o movimento que tu mesmo continuou, sem saber.

Não, a vida não se opõe à morte. Doenças, pragas, parasitas, vermes, são apenas ainda outras formas de vida, “vida contra vida”, a vida se testando a si mesma, se reforçando, buscando o mais difícil

Pensar, nesse contexto, é que é estranho. Vida contra vida, mais uma vez? Ou vida construindo pra si outras formas de vida? Vida construindo pra si um espelho? Vida mirando vida?

***

Talvez, não possamos fazer diferente… Mas que sabemos nós do que nós “podemos”? Se somos a vida, ela é quem diz onde começa, onde termina, nossa própria realidade, nosso próprio ser

Se somos a vida…

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