Camadas de relação

A vida alimenta a clínica, e a clinica alimenta a vida.

Tantas coisas se perderam na nossa maneira de nos relacionar com os outros, que a clínica acaba sendo, ao menos para mim, uma espécie de ‘escola’ das nuances das relações.

(Ou talvez ela apenas esteja dando nomes para coisas que sempre estiveram ali, ao menos para os mais atentos).

Enfim, vou aprendendo…

***

Outro dia, por exemplo, um senhor idoso da vizinhança me parou para dizer algo como : “aproveite a vida… ela passa, e é bem difícil aqui, na minha idade…”.

Em outros tempos eu sei que não valorizaria seu gesto, já que a informação que ele me passou é, no fundo, meio óbvia.

Mas hoje eu vejo diferente, pois a clínica me ensinou a ver um pouco mais longe, e enxergar o gesto para além da “informação”.

***

Eu então fiquei comovido com a fala do senhor; porque, para além do ‘informativo’, o que estava acontecendo ali era uma tentativa de ajuda. Ele queria me passar um conhecimento que julgava importante. Ele queria se aproximar de mim, talvez tornar sua experiência de vida útil para mim. Era um gesto de doação, em suma.

Mas nada disso estava à mostra, na superfície. Foi preciso escutar uma outra camada de relação.

Umas semanas mais cedo, entrevi no olhar desse senhor um ‘quê’ de súplica, como se ele só quisesse me dizer algo… mas eu, com pressa, não sustentei a situação no tempo.

Outra coisa não explícita que a clínica nos ensina: às vezes, só precisamos esperar, para que as coisas tenham tempo de surgir… Sem gritos, sem grandes gestos, sem decisões heróicas… Esperar. Dar tempo ao outro. Sustentar uma situação. Não-agir.

***

Tudo isso, como disse, está um pouco além do visível. Toda uma camada (ou camadaS) de relações acontecendo agora, nesse mesmo instante. Basta… estar atento.

Talvez seu vizinho, seu amigo, seu parente, sua namorada, um colega de trabalho, talvez todos tenham coisas importantes para dizer pra você. Não tanto na camada visível, mas um pouco mais adiante. Nada impossível de perceber, na verdade, basta se abrir para isso.

Mas nossa cultura parece tender muito mais para saturar o visível – falar, postar, anexar imagens, músicas, vídeos… É como se tentássemos compensar a falta das camadas mais profundas de relação com um excesso de superficial.

Você acha que vai funcionar?

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