Os dois níveis da experiência (corpo e memória)

A sabedoria popular diz que “dinheiro não é tudo – há também o cartão de crédito…”, apontando e brincando justamente para essa dualidade da nossa experiência que quem trabalha com pessoas conhece tão bem.

De fato, a clínica nos mostra diariamente que dinheiro não é tudo. Mas nem por isso precisamos concluir que dinheiro não é nada (até porque, costumamos cobrar ao final de cada sessão…).

Aliás, porque precisaríamos decidir? Isto é, porque precisaríamos eleger apenas um desses dois âmbitos da experiência – o material e o espiritual – quando muita coisa nos sugere que vivemos sempre entre os dois?

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De fato, nada, a não ser nossa compulsão teórica – às vezes tão similar à ignorância -, nos obriga a situar o humano em apenas um desses polos.

A realidade não precisa concordar com nossa lógica; tampouco com a nossa falta dela. Mas esquecemos disso amiúde, e saltamos alegremente de conclusão em conclusão, como se estivéssemos de fato galgando muitas milhas no real.

Não estamos.

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Ninguém que já tenha passado sufoco na vida questionará a importância do aspecto material da existência, penso eu. Ter onde dormir, o que comer, como atender as necessidades básicas, certamente não é tudo, mas é, sim, muito.

Por outro lado, basta um pouco de experiência com o trato humano para nos convencer de que há algo mais envolvido. A felicidade não acompanha, sempre, os bens materiais, e não é incomum termos no divã pessoas muito ricas por um aspecto, mas tremendamente empobrecidas, por outro.

Chamemos esses dois âmbitos como quisermos – materialidade x espiritualidade, biologia x psicologia, riqueza x sentido, corpo x mente, talvez seja mais correto e simples apenas aceitar que ambos existem, e que nossa experiência costuma se dividir entre esses dois extremos.

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Como psicólogo e leitor de psicanálise, gosto de diferenciar esses âmbitos chamando-os de “corpo” e “memória”. O aspecto “corpo” de nossa existência nos prende ao real, ao presente, às necessidades básicas e urgentes – preciso comer agora -, enquanto o lado “memória” nos afasta da realidade e do presente, abrindo uma dimensão totalmente nova no existir, para o bem e para o mal.

Pense em quanta coisa de sua vida subjetiva depende da memória. Estritamente falando, “subjetividade” e “memória” são quase que sinônimos, e uma leitura importante de Freud vincula sua contribuição justamente a isso: perceber e criar ferramentas conceituais para sustentar que a subjetividade é a memória.

Sem memória não teríamos uma perspectiva do futuro; não planejaríamos, não aprenderíamos. Não teríamos como comparar experiências, e escolher aquilo que nos interessa mais. Não teríamos individualidade, nem liberdade diante dos estímulos. Seríamos escravos das configurações do instante.

O fato de termos uma memória é um grande salto à frente, mas também uma grande fonte de complicações.

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Porque, sem memória, não há problemas – ao menos problemas psicológicos. Quem nunca viveu uma desilusão que atire a primeira pedra, mas o fato de mantermos um registro subjetivo das coisas é também um fardo. Talvez isso explique algo da nossa compulsão atual pelo instantâneo – com Instagram e afins – já que ter uma memória é realmente difícil.

Se a memória é condição de todos os nossos momentos ruins, ela também é indispensável para todos os bons. Subjetivamente, não teríamos sequer experiências, sem memória. Teríamos apenas instantes governados por instintos e pelo ambiente.

(aliás, “instintos” são uma forma de memória do corpo – como os genes -, assim como “ambiente” designa uma forma de estabilidade do mundo real, uma “memória material”, se quisermos, vinculada à constância das leis da física).

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Concluindo, uma memória como a nossa provavelmente é o que nos faz humanos. Por isso é difícil não entender a insistência de nossa cultura em favorecer o instantâneo como algo desumanizante.

O antídoto a isso seria, obviamente, lembrar: lembrar que temos um passado próprio; lembrar que ele nos caracteriza, e que nele podemos nos reconhecer; lembrar o que fizemos, o que aprendemos com isso e o que queremos fazer diferente no futuro; lembrar que ainda temos um futuro.

Lembrar, em suma, que somos seres humanos, e, como tal, não podemos fugir de nosso passado –

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