Espinosa e o “GPS da alma”

Espinosa foi um filósofo holandês do séc XVII, bastante conhecido nos meios “psi” por ter oferecido ao mundo uma das mais elaboradas teorias sobre o funcionamento integral do ser humano. Não à toa, o neurologista Antônio Damásio, um dos expoentes da pesquisa sobre consciência e emoções na atualidade, explicitamente utilizou Espinosa como “guia”, e, para surpresa de muitos, conseguiu encontrar bases empíricas para a visão do filósofo.

Entretanto, acho importante guardar alguma distância dos seus ensinamentos, e neste post vou tentar explicar o porquê.

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Conversando esses dias com um amigo e colega – e filósofo, ainda por cima, o @ddtpsi -, percebi que as afirmações de Espinosa eram, ao mesmo tempo, verdadeiras em algum sentido, mas também errôneas, quando comparadas com nossa experiência clínica atual. Como explicar essa dicotomia?

Foi então que pensei na imagem do GPS: Espinosa faz afirmações gerais sobre o funcionamento psíquico do ser humano, as quais funcionam, quando as utilizamos como afirmações gerais. Seria mais ou menos como um GPS que nos indicasse que a cidade pra onde queremos ir fica para o norte.

A indicação é correta, mas quando chegamos na tal cidade, e queremos ir para uma livraria específica, por exemplo, precisaremos de outras indicações mais precisas, mais pontuais. E é aí que o “GPS” da alma de Espinosa pode falhar, na minha leitura.

Porque ele segue sempre dando a mesma direção genérica – “vá para o norte!” – sem nos indicar que rua pegar, quais contornos fazer, os desvios necessários para chegar lá …

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Assim, por exemplo, Espinosa estabelece que uma ideia adequada (sobre qualquer coisa) implica num aumento da minha potência de viver – da minha alegria, podemos dizer, pra simplificar.

Isso é correto, como disse, quando olhado de longe: em geral, nossas ideias mantém uma relação importante com nossa auto-percepção e, em consequência, com nosso humor.

Quando descemos ao particular, no entanto, encontramos uma série de situações clínicas que não “cabem” na afirmação de Espinosa.

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Pode acontecer, por exemplo, de um paciente ter uma ideia “inadequada” – um sintoma, por exemplo – que nitidamente aumenta sua potência de viver (sua alegria). O sintoma ajuda o paciente, embora, via de regra, não seja a melhor solução para ele.

Na mesma linha, acontece de chegarmos numa ideia que entristece o paciente, mas que, mesmo assim, implica num ganho de potência de vida: depois de perceber, aceitar e elaborar essa ideia triste, o paciente consegue resolver uma série de problema em sua vida, terminando por ganhar mais alegria e potência.

Em resumo, a afirmação de Espinosa funciona “à distância”, ou no geral. Mas quando queremos usar suas afirmações para casos particulares, já não funciona tanto assim.

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Isso acaba sendo importante porque muita gente pensa que pode substituir a clínica por uma leitura de Espinosa. Outros usam Espinosa para validar críticas à teoria da clínica.

Isso é legítimo, sem dúvida. Vivemos um momento onde há poucos consensos teóricos sobre o funcionamento da clínica, então é correto que se busque novos pontos de vista.

Mas precisamos abordar a questão com a complexidade que ela nos oferece, incluindo na nossa crítica dados que Espinosa não possuía na sua época, como a própria experiência da clínica, o estudo de doentes mentais em geral…

Assim estaremos sendo justos com o filósofo, penso eu. Não é pouca coisa ter construído um “GPS da alma” há 300 anos atrás. Mas hoje precisamos – e dispomos – de ferramentas mais pontuais, que nos indiquem as minúcias do caminho.

De resto, ainda há muito para aprender com ele.

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