O uso pessoal da ciência em Freud

Uma pedra jogada pra cima pode ser fotografada em dois momentos muito diferentes, que no entanto parecerão idênticos na fotografia. Basta que tiremos uma foto quando a pedra está subindo, e depois outra, no mesmo lugar, mas quando a pedra está caindo.

Gosto de usar essa pequena experiência mental para ilustrar o fato de que, olhando apenas para a foto, provavelmente não saberíamos do movimento da pedra. Embora claro e preciso, o registro do momento deixa de fora uma parte importante do processo como um todo.

De maneira análoga, quando pensamos sobre alguma personalidade a partir de alguns recortes de sua vida, muitas vezes deixamos de fora ‘o movimento’, aquilo que completaria a cena. O contexto.

Pensando nisso, resolvi escrever sobre Freud e o uso particular que a ciência pode ter tido em sua experiência.

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Começo lembrando que Freud, cuja imagem geralmente está ligada ao rigor e a um certo realismo prático, foi também um adepto de teorias bastante estranhas, pra dizer o mínimo. Basta lembrar da numerologia, à qual ele dava um certo crédito, mesmo em momento avançado de sua vida (temendo, por exemplo, morrer aos 50 anos, por questões numéricas, como conta Peter Gay em sua biografia).

Fliess, talvez o mais famoso de seus amigos, era também um pensador excêntrico. Ele acreditava numa correlação entre os genitais e a região nasal, e dizia poder realizar um aborto a partir de uma intervenção cirúrgica no nariz ( ! ).

É verdade que Freud se afastou de Fliess, quando a contradição entre suas ideias e sua prática se tornou grande demais. Mas não deixa de ser significativo o fascínio inicial de Freud por ele.

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Poderíamos incluir outros nomes nessa lista de amigos ‘estranhos’ de Freud – como Jung, Reich ou Ferenczi. Todos com liberdade – e coragem! – para defender ideias bastante distantes do “status quo”, conjugadas com a importante contraparte do ideal científico.

É fácil ver nesses amigos de Freud uma espécie de “projeção”. Sem querer ‘psicologizar’ muito a coisa, é plausível que Freud visse nesses seus companheiros uma espécie de ideal de si mesmo.

O fato de essas amizades terem tido todas o mesmo fim – uma espécie de ‘divórcio’ magoado e sofrido, com Freud em geral se afastando de forma definitiva -, sugere que realmente havia algo de emocional nisso tudo.

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Mas meu ponto aqui é menos o emocional freudiano do que papel que a ciência poderia ter desempenhado nesse contexto.

Fico pensando até que ponto, em Freud, o ideal científico não era uma espécie de salvaguarda, uma força em oposição à tendência para o místico que ele sentia, talvez, em si mesmo?

Como se a ciência fosse uma espécie de reação, um movimento secundário, posto pra trabalhar talvez justamente pela tendência oposta ao obscurantismo.

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Não temos como saber, nem precisamos. Quis apenas rascunhar um quadro que me parece plausível, dadas as contribuições teóricas de Freud, as quais trazem quase sempre as marcas dessa conjugação difícil entre o obscuro e o científico.

Não vejo isso como um problema. Cada pensador terá suas motivações internas, e o que interessa pra nós, que nos beneficiamos de seu esforço, é o resultado dessa luta – não a luta em si mesmo.

Mas não deixa de ser interessante pensar em como os conflitos internos do criador podem influenciar parte importante do futuro de uma teoria. Penso, por exemplo, na nítida predominância do debate interno, na psicanálise, em detrimento do debate com outras correntes, outras vertentes teóricas – como se o exemplo de Freud seguisse como uma espécie de modelo não explícito, mas atuante –

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