Perder por um lado, ganhar por outro(s)

Em complemento a posts anteriores, onde falei sobre um modo mais holista ou oriental de perceber a vida (aqui e aqui, por ex), hoje quero falar sobre um aspecto muito ocidental, muito nosso, que pode ser empobrecedor – embora esteja bastante em voga.

Refiro-me à incitação meio ansiosa para que nossas prioridades sejam bem definidas, para que nossos problemas sejam resolvidos, para que tenhamos metas claras… em uma palavra, para que transformemos nossa vida em algo organizado; para que controlemos – tudo, ou quase – em nossas vidas.

Agora.

Sem um minuto a ‘perder’.

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Jogada assim, essa ideia parece meio sem sentido. Como se eu estivesse defendendo a vida como caos, a perda do controle, etc. Mas não é isso.

O ponto que me interessa é que, ao exortar demais a organização, o controle, a resposta imediata, a gente às vezes acaba perdendo a polissemia dos acontecimentos.

Como assim?

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Com isso quero assinalar como os acontecimentos da vida humana, quase sempre, têm mais de um sentido. São polissêmicos, podem ser vividos de diferentes maneiras.

Vale dizer: se não temos pressa, se não queremos resolver tudo instantaneamente, pode acontecer de a experiência em questão – o problema, digamos assim – “mudar”, se transformar.

Pode acontecer de nós mesmos mudarmos.

Com isso, outros sentidos aparecem.

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Um exemplo tem a ver com a educação de nossas crianças: muitos pais acabam buscando resolver as dificuldades dos filhos na mesma hora, instantaneamente. Acreditam, com isso, estar contribuindo para a educação deles. Mas o fato é que, agindo assim, muitas vezes eles privam a criança de uma experiência importante – qual seja, a experiência de se frustrar, de não saber, de não ter respostas…

Essa insuficiência diante das coisas é uma experiência muito humana, e – a partir de certa idade – é saudável que a criança tome conhecimento disso.

Mas se resolvemos tudo rápido demais, não damos tempo para que a criança amadureça com a experiência. Para que ela aprenda. Para que ela SE transforme, a partir do que foi vivido.

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Outra analogia seria comparar nossos “problemas” com a prática de exercícios: o exercício não funciona se não colocarmos um certo peso, uma dificuldade, para os músculos. Se alguém vem correndo e nos ajuda a fazer o movimento, o exercício não ocorre. Sem esforço, não há crescimento muscular. E o mesmo se dá psicologicamente.

(É óbvio que não estou dizendo para jogarmos Halteres de 200kg em cima de nossas crianças, mas o extremo oposto também não ajuda :D).

Da mesma forma, se nos privamos de vivenciar as dificuldades como dificuldades – se queremos tudo resolvido, tudo definido, tudo organizado – podemos estar perdendo uma oportunidade de crescimento de nossa ‘musculatura mental’.

O ponto aqui é que as dificuldades podem não só nos fortalecer, mas principalmente nos enriquecer internamente. Nos transformar.

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É importante notar como o fator tempo é fundamental nessa discussão. Muitas vezes, aquilo que é vivido como um problema, se sustentado no tempo – isto é, se não buscamos resolvê-lo instantaneamente – acaba se transformando em outra coisa, que não é necessariamente uma solução.

Ás vezes, o problema muda; ás vezes, somos nós que mudamos. Pense em como a prática do exercício não é algo para ser ‘resolvido’ – mas sim algo que nos transforma, se apenas dermos tempo ao tempo? Aquele “peso”, aquela dificuldade, não está ali para ser retirada, para ser resolvida, mas sim para nos transformar, nos fortalecer, se apenas insistirmos um pouco na vivência do “problema” – na experiência continuada do ‘peso’, da dificuldade.

Muitas das dificuldades da vida são – ou poderiam ser – como esses pesos. Algo que não precisa necessariamente ser resolvido, mas algo que nos ajudaria a mudar – se a gente apenas tolerasse um pouco mais o problema.

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