Psicanálise normativa?

Quando eu era mais próximo da esquizoanálise – uma linha da psicologia mais problematizadora, digamos assim -, era comum ouvir críticas à psicanálise, e à psicologia em geral, no sentido de serem práticas normativas.

Generalizando, a ideia era mais ou menos essa: ao se deparar com um problema do paciente com seu emprego, por exemplo, a psicanálise tenderia a ajudá-lo a entender e a tolerar sua profissão, ao invés de utilizar o sofrimento do paciente como veículo de mudança do emprego.

Dito de outra forma, a psicanálise “amansaria” o paciente, ao invés de potencializar a situação em direção à novas configurações sociais, novas demandas trabalhistas, etc.

(estou generalizando, ok?)

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Há alguma verdade nessa crítica. A psicanálise, principalmente a freudiana, tendia a estruturar as situações clínicas muito centrada no sujeito, no subjetivo, deixando todo o resto – o social, o real, o político – pra fora do divã.

Ao mesmo tempo, essa crítica já nasce um pouco defasada, porque a maioria dos pós-freudianos enriqueceu a clínica com uma visada mais social. Basta lembrar de Winnicott e sua noção de “ambiente”, que englobava o social, o político, etc, já em 1945.

De qualquer forma, acho que esse tipo de crítica é importante, justamente por apontar para a polissemia das experiências humanas. Muitas vezes, quando temos um problema, a questão não envolve necessariamente uma mudança interna, mas pode ser relativa a algo de nosso entorno – o ambiente de trabalho, os amigos, familiares, etc.

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Mas a polissemia funciona nos dois sentidos, e às vezes uma mudança interna também é uma forma de tocar no social. Sem contar as situações onde uma mudança interna simplesmente altera os termos do problema, e o que antes era insuportável passa a não ter mais importância.

Pensei nisso lembrando de um paciente, que iniciou tratamento justamente muito incomodado com seu emprego. Apesar de precisar dele para pagar as contas, esteve por diversas vezes a ponto de pedir demissão, porque a experiência beirava o insuportável.

Com o andamento da análise, no entanto, fomos percebendo que o emprego era apenas um amplificador, uma lupa, para uma questão mais genérica: a falta de sustentação no paciente para seus próprios contornos subjetivos. Vale dizer: o paciente não vivia à vontade consigo mesmo, e isso se refletia no trabalho.

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Já mais para o final do tratamento, podendo acolher melhor suas próprias demandas, a vida do paciente se tornou mais “leve”, mais fácil. O trabalho continuava um ambiente complicado, mas por ter construído vários outros espaços para viver a partir de si mesmo, essas complicações já não pesavam tanto para o paciente.

E aqui chegamos ao ponto que me interessa: tendo enriquecido sua vida subjetiva, o paciente ganhou também liberdade para decidir o que fazer com seu emprego – sem ser obrigado a fazê-lo, pelo sofrimento, pelos desencontros, etc.

Essa posição, que para nós era uma conquista, poderia também ser criticada, a partir de uma certa leitura como a da esquizoanálise. Afinal, o trabalho do paciente continuou desumano, ao passo que o paciente, efetivamente, ficou mais tolerante. Alguém poderia dizer: “olha aí, de novo, a psicanálise normatizando os sujeitos”, etc.

Mas para nós, que conhecíamos a situação de perto, não era bem assim: agora ele tinha, pela primeira vez na vida, um espaço interno confiável, para onde se recolhia e fortalecia, diante dos embates com o trabalho. Ele podia, também pela primeira vez, fazer uma escolha que seria sua, não como uma RE-ação pura, mas como uma afirmação de sua recém conquistada liberdade subjetiva.

Tanto foi assim que, por escolha própria, ele continuou no emprego e foi construindo sua saída dali. Sem passar apertos, sem se endividar. Fez outro curso, estudou, e pode, algum tempo depois, simplesmente pedir demissão.

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Talvez estejamos apenas falando de maneiras diferentes de resolver o mesmo problema: alterar a configuração social primeiro, e depois, até com o que advier disso, permitir mudanças subjetivas. Ou: alterar o subjetivo primeiro; e depois, até com o que advier disso, permitir mudanças sociais.

Meu ponto aqui é menos discutir ou confrontar teorias, do que mostrar como as coisas da vida são complexas, têm várias camadas – e portanto, nem sempre só porque alguém continua num emprego ruim, é porque ele (ou sua terapia) são normativos / normatizados.

Às vezes, quem parece parado está, na verdade, em movimento, em transformação. Às vezes, ao contrário, muita mudança na superfície acontece para manter as coisas exatamente como sempre estiveram. Às vezes, o que precisa ser resolvido em primeiro lugar é nossa pressa de resolver as coisas. Às vezes mudamos mais, permanecendo parados (aparentemente) no mesmo lugar.

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