Nossas ações no tempo. A importância do contexto

Entre tantas coisas que parecem fazer o pensamento psicológico ser um “ET” em nossa cultura atual, o contexto temporal, o sentido de nossas ações no tempo, talvez seja uma das menos intuitivas.

Mas isso é algo tão fundamental, tão essencial ao que nos faz humanos, que vale a pena tentar falar um pouco sobre isso.

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Uma cena comum para quem tem crianças em casa: a criança faz algo errado e, conversando com os pais, promete nunca mais fazer aquilo, mostra-se arrependida, etc… mas, talvez já no dia seguinte, acaba fazendo exatamente o mesmo erro.

Os pais mais rígidos tendem a ver aí uma mentira, uma malandragem da criança, mas nem sempre é disso que se trata. Muitas vezes, a criança ainda não aprendeu a lidar direito com o fator tempo.

Isto é, pra ela, é como se o passado e o futuro fossem coisas meio apagadas… que nem sempre a gente lembra. Então, “nunca mais vou fazer isso” pode significar, pra criança, simplesmente que ela quer se livrar do problema logo, quer resolver as coisas do presente, e ponto.

Ela talvez não tenha muito clara a noção de que amanhã as coisas vão continuar como hoje, e os pais vão lembrar do que foi dito… e que, então, as coisas têm uma continuidade no tempo.

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Essa noção de que as coisas continuam no tempo, de que há uma continuidade temporal para nossos atos, é uma conquista do amadurecimento, para o psicanalista D. Winnicot. Isto é, não é algo dado, algo que pode ser suposto presente sempre, naturalmente.

Independentemente da forma como o cérebro processa nossa temporalidade, haveria um uso subjetivo dessas informações, argumenta o autor, e esse uso precisa ser desenvolvido, como parte do amadurecimento emocional global da criança.

Nesse processo, vemos coisas curiosas, como crianças que brigam “de morte” num dia, mas no outro estão bem, como se nunca tivessem brigado. Ou então “esquecem” promessas feitas, ou se comportam como se os outros não fossem lembrar das coisas deles, etc.

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Para Winnicott, nascemos com uma experiência subjetiva fragmentada, como se o bebê vivesse cada experiência como algo separado, dissociado, sem ligação com o que passou ou o que virá. Só com o tempo e a continuidade dessas experiências, sua repetição, etc, é que a criança começaria a integrar uma experiência com a outra, e ir construindo, aos poucos, uma noção subjetiva de tempo (reforço o “subjetiva” aqui, pois não estou falando do cérebro!).

O desenvolvimento dessa capacidade é fundamental, e nos permite diferenciar, por exemplo, o contexto de uma ação – geralmente ligado a seu passado, a algo que tem que ser aprendido e lembrado – da ação em si mesma, tomada apenas em seus aspectos presentes.

Podemos dizer então que, nas crianças saudáveis, o passado começa a ter cada vez mais importância, o que permite que também o futuro passe a ‘existir’, como uma projeção, um plano, uma possibilidade – e não apenas uma palavra, como nas crianças pequenas (e, talvez, nos políticos).

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Quando digo que isso parece um pensamento “ET” para nossa cultura, chamo a atenção para o fato de que mesmo os adultos, muitas vezes, não se dão conta da importância desse fator temporal.

É comum, por exemplo, vermos pais em dificuldade para impor limites aos filhos, entre outros motivos porque lembram de como foi ruim na experiência deles, pais, quando viveram essa experiência na infância.

Mas será que se trata do mesmo contexto?

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Essa pergunta, muitas vezes, não é feita. Faz muita diferença, por exemplo, você ser criado num contexto afetivo e respeitoso, e então ter que lidar com limites, ou você crescer num contexto invasivo, cheio de desencontros e desentendimento, e ainda por cima ter que lidar com limites.

No primeiro caso, o bom clima relacional “compensa”, equilibra, por assim dizer, o trabalho com os limites (que, tomado em si mesmo, nunca é fácil). Mas no segundo caso, onde falta tanta coisa do ponto de vista emocional, lidar com limites pode ser só a gota d’água, o ponto de falha explícito de um processo que foi, todo ele, falho.

É claro que isso pode envolver muitas outras questões, mas chamo a atenção para o fator temporal / contextual, porque isso muda tudo.

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Basta pensar que, a depender do contexto, a falta de limites de uma criança pode ser uma espécie de saúde – um pedido de ajuda, talvez, uma ocasião para expressar toda a frustração que ela sente, etc. Isso para mostrar como tomar apenas a atitude em si mesma quase sempre é insuficiente para que possamos entender o que está acontecendo.

Mas nossa cultura insiste na ideia de que podemos separar as coisas de seu contexto, o que aparece claramente nos frequentes pedidos de “dicas” psicológicas. “Devo colocar meu filho de castigo”, por exemplo, é uma pergunta que pode ser respondida das formas mais diversas, e ter os mais variados efeitos, a depender do contexto de vida dessa família.

Mas parece que nós temos dificuldade de lidar com – ou aceitar? – nossa própria complexidade, e as vezes simplificamos as coisas ao ponto de nos “desumanizar”.

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