(Outras) confusões de língua entre o adulto e a criança

Ferenczi sentado, próximo ao centro, com Freud à esquerda

O título deste post evoca o polêmico artigo de S. Ferenczi onde ele diverge de Freud especificamente sobre o sentido de certas palavra / comportamentos, na criança e no adulto.

O contexto da discussão foi, provavelmente, a insistência de Freud em enxergar nos comportamentos amorosos da criança (isto é, afetivos, termos), um comportamento sexual, comparável aos comportamentos da sexualidade adulta madura.

A importância do texto de Ferenczi prende-se justamente a ele ter enfatizado o quanto essas experiências, mesmo que sejam sexuais, como queria Freud, significam e são vividas pela criança e pelo adulto de formas muito diferentes, o que pode causar uma “confusão de línguas” – um desentendimento – importante.

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D. Winnicott pode ser considerado um continuador dessa tradição ferencziana, pois ele também dedicou-se a mostrar as especificidades da primeira infância no ser humano.

Essas especificidades acabam permitindo pensar que, se compararmos a experiência de um adulto com a experiência do bebê, haveria uma série de outras “confusões de língua”, uma série de outros usos e formas de entender as palavras e experiências humanas.

Daí a ideia deste post: falar das “outras” confusões de língua que podemos imaginar a partir daí.

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Comecemos pela estabilidade suposta pelas nossas palavras “de adultos”. Mal nos percebemos disso, mas afirmações como “o dia está bonito” supõe uma série de regularidades, de continuidades, de aproximações, que a criança muito pequena ainda não tem, segundo a teoria do desenvolvimento emocional de Winnicott.

Isso que chamamos de “o dia”, por exemplo, é, no fundo, uma generalização de uma série de instantes unidos por nós – adultos – em uma única palavra, mas que a criança pequena viveria como instantes separados, sem relação um com o outro.

Logo, isso não faria muito sentido para ela.

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O mesmo se daria em relação a continuidade temporal suposta por muitas de nossas palavras. O caso da palavra “dia” seria aplicável aqui também, mas podemos pensar em outros: por exemplo, em como nós ligamos instantes que estão separados no tempo, a partir de uma continuidade que a criança nem sempre entende.

O exemplo que me ocorre é relacionado a dormir: para nós, adultos, é lógico que as coisas e pessoas que conhecemos “antes” de dormir continuarão lá “depois”, quando acordarmos. Mas na visão infantil que construímos a partir de Winnicott, pode ter havido um momento na infância em que isso não seria tão “óbvio”; onde a criança pode ter tido até medo de “perder” as pessoas, ao precisar dormir.

Isso porque a continuidade temporal entre um momento e outro pode não ter se consolidado ainda, para o bebê. “Dormir”, então, pode se tornar uma experiência de perda assustadora, assim como uma simples ausência da mãe que extrapole a capacidade nascente do bebê de lembrar-se dela, por exemplo.

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Podemos pensar também na diferençiação entre fantasia e realidade, que, no adulto – saudável – costuma estar bem consolidada, mas para a criança muito pequena, não (sempre, segundo Winnicott).

Assim, o bebê pode sentir-se em apuros por ter ficado brabo com a mãe (que se ausentou um pouco demais, por exemplo) e desejar que ela se machucasse ou que nunca mais voltasse. Isso poderia assustar o bebê, já que esse desejo (fantasia) e a realidade ainda são coisas muito próximas, muito confundidas, para ele.

Vemos isso ainda em crianças maiores, por volta dos 08 ou 10 anos; parte de seu comportamento ainda é uma espécie de teste, para ver se as coisas “do mundo real” se diferenciam – mesmo! – daquilo que acontece em seu mundo interno.

Em consequência, tudo o que dizemos para elas, e tudo o que elas nos dizem, acaba tendo sentidos diferentes, pois as crianças podem entender nossas palavras como sendo “A” realidade – sem metáforas, sem aproximações. Um caso clássico é prometer vagamente algo para elas – do tipo, “vou ver se dá pra comprar tal coisa”… -, e ver que elas entenderam isso de acordo com o desejo e as fantasias delas, como se você já tivesse dado certeza de que comprará aquilo amanhã mesmo, etc.

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Tudo isso é muito interessante não só pra entender melhor nossas crianças, mas também para nos dar uma certa exterioridade em relação à nossa própria linguagem de adultos. Vendo como o uso da linguagem, o entendimento linguístico, é algo que tem que ser construído (isto é, algo que não é um dado simples, natural, que decorreria da própria linguagem) vemos também o quanto de arbitrário, de convencional, existe em nossa linguagem adulta.

Isso nos ajuda a por em perspectiva tudo aquilo que construímos com nossa linguagem – a desconfiar das palavras. Ou a brincar com elas, como os poetas e os escritores (que talvez nos dêem mostras, só com isso, de uma insuspeitada epistemologia).

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