“O que é isso, Companheiro”, de Fernando Gabeira (Ou: Manifesto ANTI-político)

Política: o bode expiatório

Quando eu era mais moço, participei, como muitos, “da política”: entrei em greves, representei os estudantes, aquela coisa toda.

Isso parecia o correto a se fazer; isso nos dava a impressão de estar contribuindo com o mundo. Nós nos sentíamos mais poderosos, mais intelectuais, mais tesudos. Mais tudo.

A desilusão logo veio, claro, e, com ela, uma série de aprendizados. O principal, como muitas vezes acontece, era o mais óbvio, e o que mais eu relutava em ver: o povo não se interessa por política.

Lá atrás, isso parecia um problema. Mas hoje – em parte pelo livro de Gabeira, que vou resenhar logo mais -, percebi que o povo está correto. O erro está com os intelectuais.

***

Não sei se hoje em dia ainda se pensa política entre os jovens, mas o fato de “isentão” ser um xingamento nas redes me sugere que sim.

Se for esse mesmo o caso, posso imaginar, hoje como ontem, o choque entre essa vontade de auto-determinação que o jovem defende, em si e “no povo”, e o desinteresse mudo, pacato, e às vezes até simpático, ‘com a causa’ – mas sempre “atrasado” pra outro compromisso, sempre “hoje não”, etc.

Posso imaginar, porque vivi algo assim. O fato que cada nova geração ‘engajada’ precisa ‘engolir’ é que “o povo”, “a massa”, não quer saber de política. Quer seguir sua vida, pagar suas contas, fazer seu churrasco, acompanhar a novela, o futebol.

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Política, pra quê?” Isso é o que diz o comportamento popular, de forma bem nítida. E é típico que os intelectuais sejam os únicos a não ver isso. O conhecimento também nos cega para a realidade.

Se apenas déssemos ouvidos ao povo, deveríamos estar buscando formas de política que não incomodassem; que fizessem o que tem que fazer, e deu. Política como o “mau menor”. Política como “última ratio”. Se é necessário que tenhamos um governo, que ele fique lá, no canto dele, e não nos atrapalhe.

Mais ou menos como o Judiciário, o hospital ou a polícia: nós precisamos deles, em casos extremos. No dia a dia, melhor passar longe.

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Mas esse é o fato central de toda a “política” até aqui: sempre se lutou para tomar o poder; a instituições; o governo. Essa luta nunca teve a ver com o povo, a vida concreta das pessoas.

Sempre se acreditou – o que é ingênuo até não mais poder – que era possível dirigir – resumir, controlar – a vida de uma população inteira apenas mudando as regras do jogo do trabalho, ou do poder. Como se toda a riqueza cultural que a população cria por seu próprio funcionamento fosse, no fundo, um epifenômeno das relações de classe, das estruturas do capital, etc.

Pelo contrário, meu amigo! É a política que é um epifenômeno das relações sociais. A vida em sociedade é rica por seus próprios meios. Basta que o governo não atrapalhe demais. Essa é a verdade fundamental sobre a política.

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Dizem que algumas tribos elegem seus chefes como “bodes expiatórios” – um pobre-coitado que vai fazer as escolhas difíceis e levar a culpa pelos problemas do grupo.

Esse passou a ser, pra mim, o ideal de política alcançável, realizável.

Que em nossa cultura, esse bode seja um pouco mais caro e complicado, vá lá. Nós também somos mais ricos que nossos irmãos tribais. Mas chega de confundir a vida real com algo que dependeria da ação justamente desse bode.

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Alguns pontos, para concluir:

  • a luta política em geral se dá visando a tomada do poder, e não a vida concreta da população;
  • essas duas coisas não são sinônimos (desenhando aqui, para os intelectuais entenderem… 🙂
  • a vida real do povo é algo muito mais diverso e rico do que simples relações de trabalho ou efeito dos meios de produção;
  • o poder, como instituição (governo) é diferente do poder criativo, intrínseco à uma sociedade que funciona
  • uma sociedade que funciona é o efeito natural de uma população que pode usufruir de sua cultura
  • a cultura de um povo não se reduz à maneira como se dão as relações de trabalho

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