Vida e política

Quando Aristóteles escreveu sobre “ética”, vários assuntos se misturavam alí, desde física, religião, até psicologia. Mas ele fazia o que era possível, com as palavras, as experiências – e os saberes – que tinha.

Hoje, num olhar retrospectivo, separamos essas coisas em campos diferentes. Sabemos mais, por exemplo, sobre o inconsciente, e sobre o peso e a tristeza que certas escolhas – mesmo eticamente corretas – podem ter na nossa subjetividade.

Isso nos permite avançar, dar novas palavras à novas coisas, e discriminar o que é, de fato, relativo à ética – ao meu comportamento na ‘pólis‘ – do que é, efetivamente, relativo à psicologia (felicidade, por exemplo).

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Fica claro então que, mesmo para um Aristóteles, é impossível ultrapassar (muito) o horizonte de sua própria época. Penso em algo semelhante quando vejo o modo como nossos teóricos estruturam as relações entre vida e política.

Porque me parecem dois campos que devem ser separados, mas que costumam ser pensados juntos. Há não muito tempo atrás, por exemplo, era comum ver grupos marxistas igualando os dois termos, seja em termos de causa e consequência – política e vida são causa e efeito um do outro -, seja em termos de sentido – só a luta política dá sentido à vida – , etc.

Como bem notou Fernando Gabeira [1], essa dedicação quase religiosa à causa acontecia grandemente às custas da subjetividade dos sujeitos. Pensar em si, nos seus desejos, ou mesmo em suas dúvidas, era algo mau visto no ‘movimento’. A causa revolucionária exigia obediência pura – ia dizer, cega… – às determinações que a ‘luta de classes’ legitimava. Mas obviamente isso continua por aí, com outras roupagens, e mesmo à direita. A cegueira não escolhe partido.

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Uma vertente da psicanálise, ligada à Lacan, se propôs a pensar esse político sem excluir daí o desejo. Como diz meu colega @ddtpsi, a subjetividade estaria ligada ao discurso do “outro”, e isso é a essência do político. Subjetividade = Outro = Política.

Mas as coisas ainda me parecem misturadas aí, mais ou menos como no exemplo de Aristóteles. Porque essa “política” que podemos pensar como derivada do discurso do outro é algo muito mais ligado à subjetividade e à cultura, do que à política como instituição, como poder ou governo.

Penso que Foucault nos deu algumas ferramentas para pensar essa separação quando fala do poder como poder de criar, algo ligado à positividade das relações humanas, nem sempre sinônimo do poder enquanto poder instituído.

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A riqueza da experiência concreta parece nos dizer isso da forma mais crua: o povo não se interessa por política – embora possa se interessar, sim, por melhorias em suas condições concretas de vida. Mas as duas coisas nem sempre coincidem.

Alguém que encontra um emprego melhorou suas condições de vida. As relações de trabalho podem ser, sim, organizadas a partir da política como instituição, mas isso iguala as duas coisas?

Outro exemplo: alguém pode encontrar um amigo, e isso melhorar suas condições de vida. A política também pode influir aí, facilitando ou dificultando esses encontros (como numa ditadura, numa separação de classes, etc), mas… amizade e política são a mesma coisa?

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Meu questionamento inclui pensar se não estaríamos nós, nossa cultura, tão acostumados a esse horizonte teórico, que temos dificuldade de olhar pra realidade desde outras perspectivas?

Pelo menos desde Marx, nos acostumamos a pensar nos destinos da história somente a partir da política. Mas meu ponto é: todas as transformações que vivemos desde então se resumem ao que foi alcançado pela luta política? Ou há uma miríade de coisas que se somam, nessa experiência complexa que é nossa vida juntos, em sociedade?

Transformações e embates sociais sempre ocorreram, mas nem sempre foram adjetivadas de “políticas”. Quando Gutemberg inventou a imprensa, por exemplo, isso obviamente dependeu de um certo funcionamento da política e da economia, mas meu ponto é: essa invenção se resume à suas condicionantes históricas? Da mesma forma, todas as consequências que essa invenção trouxe, podem ser resumidas àquelas condicionantes? Me parece que não.

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Diferente de Lacan, Winnicott entende que existe em nós um movimento natural rumo à integração – , e tudo o que tem que ser feito pelos pais é facilitar esse movimento (e não atrapalhar, claro). Para isso, fazem-se necessários tanto situações de intervenção mais ativas – alimentar o bebê, banhá-lo, responder à ele, brincar com ele – quanto situações mais passivas, do tipo que deixa o bebê entregue a seus próprios processos, e se foca na proteção desse espaço, na continuidade da experiência do bebê, etc.

A ideia que estou colocando aqui parte dessa analogia com o cuidado parental, que pode ser dividido em momentos de atividade e de proteção (passividade). Nossa teoria política em geral parece ocupar-se apenas do aspecto ativo do poder, sem valorizar a necessidade de que o poder também dê espaço para que a vida aconteça em seu próprio ritmo.

Quando esse papel protetor ou passivo do estado é enfocado, têm-se em geral um liberalismo econômico onde justamente o papel de proteção do estado acaba se apagando.

Numa palavra, nossa teoria política parece estar dissociada, incapaz de vincular os dois tipos de exercício fundamentais do governo. É como se só concebêssemos um estado gigante e totalitário (sendo o socialismo o exemplo extremo) ou um estado quase inexistente, como no liberalismo. Sempre por analogia, esses extremos corresponderiam à uma maternagem invasiva e à uma maternagem falha, insuficiente. Na vida real, muitas famílias dão conta de encontrar o meio-termo onde está a saúde. Mas não vejo uma opção clara em teoria política expressando a mesma visão.

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Notas:

[1] Fernando Gabeira, no livro “O que é isso, companheiro?”. No texto, essa frase aparece sempre que algo relativo ao desejo se atravessa nos acontecimentos puramente ‘revolucionários’. Um exemplo é ‘Dominguinhos’, garoto com seus 16 anos – mas com os 3 tomos do “Capital” na cabeça – que não sabia muito bem o que fazer em presença de mulheres. Alguém lhe sugere que “vá namorar um pouco”, e ele retruca: “O que é isso, companheiro?”.

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