Pais e filhos: o que podemos esperar

A prática clínica é um permanente exercício de dúvida, de questionamento, de reversão das – próprias – perspectivas, em busca de um olhar conjunto, em busca de algo comum entre os dois, paciente e psicólogo. Do lado do terapeuta, ao menos de orientação psicanalítica (ou winnicottiana?), considero que o esforço por se colocar no lugar do outro é o principal movimento do analista. Isso nos faz ver a vida a partir de muitos lugares diferentes, todos os dias; uma multiplicidade do olhar que pode nos fazer, também, amadurecer.

A relação analítica pode ser, então, uma relação de troca, um ganha-ganha onde cada um se enriquece com a contribuição do “outro”.

Basta que o analista se permita “não saber” um pouco, abdicando de suas defesas – suas teorias – e, como dizia Bion, “aprendendo com a experiência”.

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A relação terapeuta-paciente guarda algumas semelhanças com a relação entre pais e filhos. Não que o paciente seja necessariamente algo infantilizado frente ao analista; penso, antes, na relação entre as vivências do paciente e seus recursos internos para dar conta dessas vivências.

Via de regra, o paciente vive algo muito maior do que consegue dar conta. Não precisa ser um acontecimento enorme. A vida cotidiana, a vida comum, pode ser, sim, excessiva. E a infância é, por definição, esse momento onde estamos constantemente nos expondo a coisas que nos ultrapassam.

Felizmente, na infância, costumamos ter pais, cujos cuidados criam um “ambiente facilitador”, como dizia Winnicott, e permitem reequilibrar a balança do vivido.

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Mas “reequilibrar a balança” NÃO quer dizer que a criança passa a ser, automaticamente, um geniozinho, alguém responsável, maduro, interessado naquilo que interessa aos pais, etc. Significa, somente, que com a ajuda dos pais, a criança saudável tende a conseguir “dar conta” daquilo que vive, sem muitos percalços.

Com isso quero dizer, principalmente, que um ambiente familiar funcional libera a criança para viver os seus próprios processos de amadurecimento, os quais, via de regra, também trazem consigo uma boa dose de complicação.

Poderá haver, então, sofrimento. Mas ele será derivado dos próprios processos maturacionais das crianças. E talvez, como pais, não devêssemos esperar mais dos que isso de nossos filhos.

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Quero enfatizar, aqui, como algum sofrimento pode e deve acompanhar o amadurecimento, como parte normal e saudável desse processo.

Acho importante lembrar que existe um sofrimento normal, ligado ao crescer, porque muitos pais parecem perdidos com relação ao quê esperar de seus filhos.

E acho que muitos se sentirão aliviados de saber que a vida mesmo comporta um tanto de sofrimento, e nem tudo é culpa dos pais.

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Nossa cultura, por exemplo, talvez esteja dificultando as coisas. As exigências cada vez maiores de produção e de consumo nos tiram um tempo valioso com os filhos – tempo que não precisa ser preenchido com nada além de presença. Tempo de qualidade, onde estar junto, simplesmente, é por sí só uma terapia, uma escola, uma transmissão de vida.

As mil e uma atividades online que nos “puxam” pra fora da presença com o filhos também dificultam as coisas. Como estar presente, realmente aproveitando o momento, quando há tanta coisa acontecendo “nas redes”… (as vezes toda uma vida de fantasia necessária para contrapor à alguma falência de sentido em nossas próprias vidas?).

Por fim, essas exigências também se fazem sentir do lado das crianças: aprender, logo, muito, e amplamente, o maior número de coisas possível, pode ter um lado bom para os pequenos, mas muito facilmente toma o lugar de uma série de experiências menos dirigidas, aonde a espontaneidade da criança iria se exercitar muito mais.

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Concluo retomando a analogia da relação paciente-terapeuta / pais-filhos: na clínica, muitas vezes, o melhor que podemos fazer é esperar; sustentar uma situação no tempo, criar um espaço para que o próprio paciente encontre suas possibilidades.

Acho que nossa cultura nos prepara mal para lidar com esses espaços potenciais, espaços que nos ajudam a nos expressar, confundindo-os com espaços de abandono. Como se houvesse um difuso “horror ao vácuo”, não mais na natureza, mas em nosso mundo interno.

O que nos afasta daquilo que, como pais, podemos esperar de nossos filho: que eles encontrem a sua própria insuficiência em relação às coisas, e possam aprender a conviver com elas.

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