Valores femininos

Existem questões que demandariam tanta explicação, que não chegaríamos nunca a dizê-las, se começássemos pelas premissas.

Por isso, para falar do feminino – para mim, uma dessas questões -, senti necessidade de ser mais direto. Depois, se faltar algo, corro atrás do prejuízo.

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Vejo uma falta inquietante de valores femininos em nossa cultura. Não vejo os valores femininos sendo reconhecidos como valor “em si”.

Quais valores seriam esses? A capacidade de se identificar com o outro; a empatia; a simpatia; o interesse pelo outro; a tolerância; a doação. Enfim, valores / comportamentos que, com Winnicott, poderíamos ligar ao “ser”, ou ao “ser com”.

O que temos até demais em nossa cultura são valores / comportamentos masculinos, isto é, ligados ao fazer: a competição, a luta, a imposição, o tomar para si, o ‘resolver’ as coisas, o controle, a autonomia, o poder, etc.

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Porque chamar esses valores de “femininos”? Sigo aqui uma indicação de Winnicott, baseada, provavelmente, no papel que homens e mulheres tem na concepção e desenvolvimento dos filhos.

Por mais maternal que seja, um homem nunca terá a mesma relação com os bebês que a mãe tem. A mãe carrega a criança no ventre, alimentando-a com o que ela é, literalmente, com seu corpo. A criança e a mãe têm uma existência interpenetrada, no início, e é normal, e até saudável, que mãe e bebê se confundam um pouco, se identifiquem, sendo, de certa forma, “um ser com dois corpos“.

O pai nesse contexto está naturalmente mais afastado. Ele pouco participa da gestação da criança, a não ser como protetor do casal, isto é, como “mãe” do par mãe / bebê. Mas sua masculinidade, os ‘valores masculinos’, tem bem menos importância nesse contexto.

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A meu ver, Winnicott sugere que essa estrutura de geração / desenvolvimento do ser humano predispõe, facilita, certos comportamentos em homens e mulheres. A mulher, dado seu papel na gestação, seria naturalmente mais capaz de se identificar, de ser-com, de ter empatia, ao passo que o homem, também em função de seu papel na gestação, teria naturalmente facilidade para agir “à distância”, ajudando e sustentando o casal mãe/bebê, enquanto dura essa relação especialíssima, e da qual tanto depende, psicologicamente.

Obviamente, como em tudo o mais, uma tendência – natural, genética ou estrutural que seja – não é um destino para o ser humano, e tudo depende de como ele vai abrigar na cultura essa tendência.

E esse é o meu ponto: mesmo sendo discutível que os comportamentos e valores citados sejam ou tenham uma afinidade maior com o “feminino”, me parece claro que tais valores tem cada vez menos lugar na cultura atual.

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No fundo, trabalho com duas questões diferentes, aqui. Uma, é a afinidade que existiria entre o modo de ser “feminino” e certos comportamentos / valores. Outra, é a valorização ou não, na cultura, desses modos de ser.

(Podemos chamar esses valores que substantivei como “femininos” por outro nome, certamente; mas a questão de se esses valores são ou não mais próximos do “feminino” do que do “masculino” me parece importante, e talvez esteja no centro de minha inquietação. O feminino como tal, ou a valorização daquelas atitudes que chamei de femininas, é claramente desvalorizado na cultura, e me pergunto até que ponto recusar a esses comportamentos o nome de “femininos” não é ainda uma forma de exclusão do feminino)

Do meu ponto de vista, há uma inquietante sub-valorização do feminino em toda parte, inclusive nas mulheres. A luta feminista, por exemplo, tende a se dar em torno de questões poder: igualdade de direitos, de salários, mais cargos de chefia, etc.

São questões importantes, mas que não implicam numa aceitação maior dos valores femininos em si. Pelo contrário, parecem mais masculinizar a mulher – mostrando como ela “também” pode ser eficiente, responsável, etc – do que expandir o lugar do feminino como tal, na cultura.

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Não tenho dúvidas de que a mulher pode ser eficiente e responsável. Não se trata de uma diferenciação por exclusão, aqui: o homem tem tal coisa, a mulher tem tal outra. Trata-se de tendências, facilitações, e principalmente da ausência, na cultura, de um lugar para uma certa tendência que, baseado em Winnicott, chamei de “feminina”.

Não se trata de uma competição (aliás, “competir” também seria masculino). Homens e mulheres têm muitas coisas em comum, mas têm também suas diferentes competências. Meu ponto aqui é salientar a desvalorização dos modos de ser ligados à feminilidade.

Em posts futuros quero falar um pouco mais do que seria esse feminino, deixando mais claro que tipo de ausência é essa que percebo em nossa cultura.

3 Respostas para “Valores femininos

  1. Na minha percepção seu texto evoca uma questão importante. Um tema sensível que requer a nuance que colocas. No meu ponto de vista, a luta por atenção, reconhecimento (simbólico e material), por possibilidade/liberdade. por “igualdade” (um conceito ruim, me parece) nos leva por vezes a cantos obscuros, contraditórios e até perniciosos. Cito dois: parece que a afirmação de um sexo/gênero passa por vezes pela negação das diferenças. A vontade de igualar, de tornar igual, acaba prejudicando a constituição psicológica como um todo e talvez acarrete na criação de uma identidade disfuncional. Como pai de um recém nascido, estou boquiaberto com a transformação hormonal que a gravidez acarretou. E apesar de não ter feito medições estou consciente de que a mãe produziu muito mais oxitocina do que eu – se quisermos falar fisiologicamente para não falar comportamentalmente. Eu tenho preocupações e dedicações para com meu filho – mas eu jamais as igualaria às da mãe. E isso é um mérito e um elogio, o reconhecimento de algo que me seria muito custoso “competir”. Outro ramo é na insistência de subsequentes classificações de sexo/gênero. O que parece conquista (sair do binarismo) pode acabar sendo mais uma prisão, ainda a busca ilusória de um lugar, um nominável, como se uma categoria pudesse de fato apresentar, redutivamente, o que uma pessoa é. Sabemos que masculino e feminino não representam bem a totalidade dos casos desde muito tempo (pense no hermafroditismo). No entanto, não me parece que a criação em si de novas categorias semânticas vá dar conta das questões identitárias e sexuais que nos acometem. Mas claro, a expressão é livre, e os preconceitos morais podem ser questionados!

    Faria apenas uma pequena consideração: no trecho “abrigar na cultura essa tendência.” eu teria escrito abrigar na experiência essa tendência (apropriação cultural). A gente tem de entender cultura como vivência, se não fica muito abstrato.

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    • Olá, Guilherme, obrigado pelo ótimo comentário! Concordo contigo, o “ser mãe” é, via de regra e biologicamente, uma função muito especializada, que a mulher costuma ter em maior ou menor grau. Acredito (embora sempre possa estar errado, claro…) que a mulher “paga o preço” dessa especialização de diversas formas, inclusive com a importância dos ciclos hormonais, que nela costuma ser muito mais intenso do que nos homens. Há uma diferença clara aí, que parece atrelada à questão da gestação, e me pergunto se NÃO VER isso – recusar ESSE feminino como VALOR, como algo BOM, algo que TEM QUE EXISTIR dessa forma – não é ainda uma forma de preconceito, de recusa DA mulher

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  2. Concordo também em relação à questão da ‘multiplicação de gêneros’. Embora não conheça muito desse campo, num primeiro olhar parece haver uma confusão entre GENERO e IDENTIDADE (ou “SER”). Se for assim mesmo, é uma confusão bem freudiana. Freud também entendia que a “escolha” do gênero era uma questão de identidade, e só bastante recentemente isso vem sendo criticado na psicanálise. Winnicott, por exemplo, não iguala essas duas coisas. Sem contar que é ingênuo achar que a “denominação” mais precisa de um gênero vai mudar algo em termos de sua aceitação: basta ver o exemplo das próprias mulheres, que já estão mais ou menos bem “descritas” à milênios, mas ainda hoje não estão realmente “aceitas”… (ao menos nos termos do meu texto. Históricamente, muitas outras épocas foram mais abertas ao feminino do que o presente).

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