Política feminina

Em um post anterior defendi a ideia de que nossa política parece muito centrada nos aspectos ativos, de direção e poder, das instituições, não tendo ferramentas ou conceitos para os aspectos passivos, ou mais precisamente de proteção e cuidado que também devem ser incluídos na boa política.

O pano de fundo de meu argumento é que a política expressa, no plano social, o mesmo tipo de relação de proteção, facilitação, ensino, interdição, direção, etc, que os pais realizam com seus filhos.

Retomando o argumento em outros termos, poderíamos dizer, então, que a política até aqui tem sido pensada apenas em termos de seu polo ‘masculino’: a intervenção, a interdição, o direcionamento ativo, a imposição, etc. Falta o polo feminino .

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Talvez isso explique a bagunça – e a infertilidade… – de nossa política. Não me refiro, é claro, à presença de mulheres ‘na’ política, isto é, nessa política exercida de forma puramente masculina, mas sim à falta de uma política mais feminina em seu modo de atuar.

E o que seria isso? Penso em coisas tais como uma ‘renda universal’, ou plebiscitos, ou movimentos de aproximação – não populista… – com o povo, talvez baixando salários, diminuindo a máquina pública, promovendo feriados e eventos não meramente produtivos, mas também divertidos (porque não?), enfim, tudo que expresse, no plano social, aqueles papéis que, na família, costumam estar associados à mãe.

Sei que isso toca num problema bastante sensível, que é o e atribuir uma ‘natureza’ ao que seria o feminino, despotencializando-o, de certa forma. Mas entendo que a questão é outra.

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Acho que os povos do oriente nos deram já alguns exemplos do que seria essa política ‘feminina’. O essencial, creio, está na postura do governo, que deixa de ser meramente ativo e impositivo, e passa a poder se identificar mais, escutar mais, não necessariamente agindo ou resolvendo, mas sustentando uma situação no tempo, até que uma resposta surja do próprio problema.

É mais ou menos o que nos apresenta François Jullien em seu livro “Tratado da Eficácia”, mostrando como, no ocidente, tendemos a entender a eficácia como algo relacionado à modelos, à práticas estruturadas, que são então impostas ao real para ‘dirigí-lo’ ou ‘produzí-lo’, em oposição à maneira oriental de governar, que passaria também por um “deixar advir o efeito: não visá-lo (diretamente) […], mas recolhê-lo – deixá-lo resultar” (pg 09).

Ou seja, o bom governo oriental implica numa escuta, numa não-oposição, ao movimento natural das coisas. Bem governar é bem identificar-se com os movimentos próprios do povo, digamos assim. É preservar a espontaneidade dos movimentos do grupo, facilitando-as.

Não temos nada parecido com isso em termos de teoria política, que eu saiba.

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Nossa cultura é muito masculina, nossa política é muito masculina, e mesmo os movimentos revolucionários que pretendem mudar a política são, também, eminentemente masculinos (querem sempre intervir, mudar, agir, impôr, governar…).

Não estou fazendo discussão de gênero aqui, que é uma construção social. Estou usando o papel natural da mulher na gestação de um bebê como modelo de relação. A mulher carrega o bebê, literalmente, em seu corpo, por 09 meses, e isso implica numa série de especificidades na relação mãe-bebê que o homem simplesmente não tem. Ele está naturalmente mais distante dos filhos.

Agora, como em tudo na vida humana, o que é natural é apenas parte do processo. Obviamente, ninguém precisa ficar limitado àquilo que a natureza organizou. A mulher não precisa ser “apenas” mãe, e não precisa nem mesmo querer ou gostar disso. Tampouco o homem precisa ser psicologicamente distante de seus filhos.

Mas esse já é outro nível de discussão. Nada impede, por exemplo, que o homem seja mais feminino, no sentido que proponho, justamente porque “feminino” não é um atributo exclusivo da mulher, mas uma forma de relação cujo modelo está dado na interação mãe-bebê.

Entretanto, a própria necessidade de explicar muito essa questão, como se estivesse sempre pisando em ovos, me sugere como ainda falta na nossa cultura uma valorização do feminino por si mesmo, como um valor em si.

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