Dialéticas do real

Nossa relação com o real não é apenas uma questão de “percepção”. Do ponto de vista emocional, há sempre a questão de “aceitarmos” que o real ‘é o que é’, que ele NÃO se submete a nós, mas nós que é devemos nos adaptar a ele.

Ao menos do ponto de vista de Winnicott, o real surge a partir de nossa relação com o ambiente. Talvez, ele nunca deixe de ser isso, afinal: um substituto, uma nova maneira de expressar nossa relação com o ambiente inicial.

Porém, o ambiente começa, ao menos na saúde, como algo delicadamente adaptado às nossas necessidades. O papel do ambiente é justamente “simplificar” o mundo (o real) de acordo com as diminutas capacidades elaborativas de uma criança. Inversamente, quando adultos, espera-se que nós nos adaptemos ao real. Como conciliar essas duas tendências opostas?

Na verdade, não há conciliação. Permanecemos, vida afora, com esses dois âmbitos da experiência mais ou menos separados.

A esfera pública é aquela onde nós nos submetemos, pelo menos em parte – ao real, às regras, às leis, à necessidade. A esfera privada é aquela onde se espera que possamos reviver parte daquela onipotência que experimentamos quando crianças (seja porque alguém cuida da realidade para nós – esposas, maridos, empregados/as, etc, seja porque não precisamos nos preocupar com a realidade, como na arte ou no sonho. Somos “os reis” de nossa própria casa).

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O pensamento parece ocupar um lugar intermediário nessa diferenciação. “Pensar” é, via de regra, criar um discurso em função de um problema, uma frustração. “Pensar” é conversar consigo mesmo em busca de uma solução. “Pensar” é um desvio, uma elaboração simbólica, que nos permite retomar uma relação de domínio para com o real.

Essa relação de domínio / onipotência, bem entendido, já era vivida pela criança ilusoriamente, ao menos na saúde. Mas “crescer” implica justamente em reduzir esses espaços de ilusão. Com relação ao resto, àquilo que não podemos mais alucinar, passamos agora a “pensar”.

“Pensar” substitui, então, o sonho.

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Quando descobrimos como o real funciona, nós o dominamos. Retomamos então àquela confiança no real que tínhamos quando crianças – mas só porque perdemos, justamente, essa confiança (baseada na ilusão).

Dito de outra forma, retomamos a confiança no real, mas perdemos a nós mesmos. Não é possível ter as duas coisas ao mesmo tempo.

Ou temos a confiança ingênua no real / ambiente, amparado sempre por “outros” que se ocupam do real por nós – confiança baseada na ilusão de identidade – , OU temos a confiança de quem entende o real e o apreende, mas sempre sobre uma base de desconfiança / frustração – confiança baseada na diferenciação.

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Haverá uma relação entre esses dois extremos? Talvez um lado necessite do outro, como descanso, como fator de possibilidade?

Assim, quem se atira ao jogo do real, para entender e dominar, precisaria justamente de um respiro no sonho, na arte – na ilusão. E quem muito se ilude precisaria, vez ou outra, de um respiro na firmeza da realidade conhecida, dominada – até para poder seguir se iludindo sem perecer.

Nossa cultura, que não entende nada, demanda “eficácia” em todos os nossos atos, cada vez mais. Suscita, assim, em resposta, uma demanda crescente de ilusão desgovernada.

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