“Hóspede da utopia”, de Fernando Gabeira

Gabeira afirma que se trata de ficção, mas bem poderia não ser. O livro, publicado em 1981, narra de forma descontinuada, picotada, uma relação entre o narrador e Luísa, personagem feminina que encarna a difícil união que o narrador tenta fazer com todas as coisas.

O narrador, espécie de “comunista em remissão”, vive com a política uma relação tumultuada e recortada. E o mesmo se aplica a todos os personagens e temas do livro – a sociedade, a individualidade, o progresso, o atraso, riqueza, pobreza, Brasil, Europa…

Os temas e a trama montada sobre eles se sustentam, de forma que a história bem poderia ser, mesmo, real. Para mim, que tenho a mesma relação truncada com a política & quejandos, o livro caiu como uma luva.

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É interessante como o livro passeia entre um tema e outro, salientando a descontinuidade das coisas pela descontinuidade da narrativa. Como se Gabeira estivesse nos sugerindo algo como: a utopia maior é achar que existe solução no mundo. Ou ainda: achar que nós podemos fazer algo para mudar as coisas. Que nós, nossa ação consciente, é parte da solução – e não do problema.

Pois sim, entre os diversos níveis de desencontro, há também o desencontro entre o progresso e as culturais tradicionais, tão ricas no Brasil do passado – e tão sem-lugar, no presente. O progresso, fruto justamente de nossa ação, de nossa crença na possibilidade de agir sobre as coisas. O progresso é uma utopia?

O livro não responde. Na verdade, ele funciona mais como uma “metralhadora de ideais”, desfazendo, nas curvas da narrativa, cada um dos recantos e certezas em que nos aconchegamos. Mas então como ficamos?

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Gabeira encanta e assusta. Difícil não pensar se essa interpretação sombria não é apenas acaso, algo que o autor não quis. Mas difícil também não perceber que tudo está montado para essa quebra de ideais, desde a capa, mostrando uma criança preta sendo levada pela mãe, olhando para o pai, fora de cena (só vemos sua sombra).

Para mim, das várias utopias questionadas no livro, talvez o Brasil seja a figura central, como esse menino da capa nos sugere. Esse país, também feito aos recortes, é mantido unido pelo quê, afinal, senão pela própria ausência de meios para mudar, para ser diferente? Isto é… pela utopia? Pelo não-lugar de sua inteireza?

O Brasil é sim, de qualquer jeito, uma questão, e não é de agora. Nele se cruzam diversas linhas de interrogação, como aquela que une e separa o homem e o meio ambiente, assim como o capitalismo e os povos tradicionais. Para que lado aponta o progresso, afinal? Para que lado se “avança”? Acreditar na linearidade das coisas, acreditar que há um sentido para tudo, eis talvez a forma maior de utopia que o livro denuncia.

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Nisso ele se aproxima de Schopenhauer, de Nietzsche, do existencialismo. Um perigoso pessimismo ronda todo o livro, e uma das questões centrais é, justamente, essa: Se não há sentido nas coisas, como viver?

Ora, como ‘hóspedes da utopia’. Como viajantes que se hospedam ora nessa, ora naquela, ora buscam um lugar para repousar, o pessimismo de Gabeira parece concluir que não é o sentido que é necessário à vida, mas a vida que é necessária ao sentido.

Primeiro, viver. E, para viver, amar. Nessa busca insana que o livro narra, espécie de colagem das mais diversas perspectivas, um pouco de Zaratustra, um pouco apocalipse, de vida após o fim do mundo, a 3ª guerra, a queda dos ideais, Gabeira constrói uma obra que não é para todos. É preciso ter sofrido as mesmas perdas, para entendê-lo. Mas quem se habilitar para a tarefa encontrará muita coisa de valor nessa leitura.

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