“Ferenczi e Winnicott: Análise de adultos na língua da infância”, de Luiza Moura

Luiza Moura com José Outeiral

Este é um livro corajoso (ed Terra de Areia, RS, 2019). Nele, Luisa Moura defende uma tese não exatamente simpática: a de que Freud teria capitulado, teria voltado atrás em relação ao que ele mesmo percebia nas doentes histéricas, em favor de uma maior aceitação da psicanálise.

Luiza parte de um dos primeiros textos de Freud, “A etiologia da histeria”, de 1896, ano em que o primeiro processo jurídico em favor de uma criança sofrendo maus-tratos foi aberto nos EUA. Detalhe, pela associação dos amigos dos animais, o que a autora entende como sintomático do estatuto dos cuidados da infância, naquele momento.

Nesse texto inaugural, Freud vincula a histeria no adulto à vivências traumáticas reais na infância. Confrontado com dificuldades de confirmação desses traumas, Freud realiza uma torção teórica em favor do trauma psíquico, isto é, da noção de que o real, no trauma, importa menos do que a fantasia, os desejos, os pensamentos, dos pacientes.

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Luiza percebe o que há de revolucionário nisso, mas também – e essa é a revolução própria à tese de Luiza – suas insuficiências.

Por um lado, o que Freud fez foi atribuir estatuto de realidade ao pensamento, aos sentimentos humanos, que passam a ser algo importante, algo que tem efeitos no real, deixando de ser “simples pensamentos”, algo desimportante, a ser desconsiderado.

Por outro lado, a virada teórica freudiana desvincula essa “eficácia” dos pensamentos da realidade concreta, criando uma “outra” realidade – a psíquica – que não precisa se conectar com os acontecimentos da realidade objetiva.

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Vale dizer, Freud deixa de acreditar no discurso da histérica como comunicando um trauma real. A partir desse ponto, o discurso do paciente será apenas um índice das complicações do mundo interno do próprio paciente. Em consequência, a ideia de trauma real, e a própria realidade como causadora de problemas psíquicos, é abandonada.

Vêm então Ferenczi e Winnicott, como “dissidentes” dessa psicanálise puramente interna. De fato, para ambos, a relação com a realidade é algo que precisa ser levado em conta. Não que todo sofrimento mental derive de um abuso sexual “estrito senso” – como queria o Freud de 1896 -, mas que o apoio, o acolhimento, a adaptação do ambiente às necessidades do bebê são um fator determinante na gênese dos sintomas psíquicos.

Essa centralidade da dependência humana ao “outro” cuidador reorganiza, repõe e desloca uma série de conceitos da psicanálise, sobretudo aqueles que se apoiavam exclusivamente na sexualidade e nas fantasias como causa primeira de todo adoecer. Uma “outra” psicanálise se desenha, nesse remanejo dos conceitos. Uma psicanálise que, paradoxalmente, reencontra o movimento inaugural de Freud, escutando o discurso dos pacientes como indicativo, metáfora ou aproximação de sua experiência real com o ambiente.

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Luiza argumenta que a psicanálise freudiana, sobre o manto (confortável) de ser uma “dilaceradora dos ideais” da infância, ao falar sobre sexualidade infantil, agressividade, etc, no fundo se esconde, ela mesma, de uma tarefa ainda mais difícil: reconhecer a dependência no centro das experiências formadoras do humano.

É justamente a imagem de “independência”, de autonomia, do heroico pensador racional, em disputa contra uma cultura conivente e mentirosa, que Luiza questiona, perguntando até que ponto o psicanalista não se esconde atrás dessa máscara idealizada.

Mas o pior é pensar nos desvios de escuta que essa posição ‘independente’ pode ter influenciado. De qualquer forma, ao abrir espaço para esse infantil percebido não a partir da “linguagem do adulto” freudiano, que a sexualiza, mas, inversamente, percebendo o adulto a partir do desamparo infantil, Luiza abre espaço para que o paciente seja novamente escutado naquilo que diz, na realidade que seus sintomas trazem à tona.

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Há muito mais no livro, mas concluo por aqui. Luiza me parece extremamente corajosa e lúcida em sua crítica, feita, assim me parece, em favor tanto dos pacientes quanto da psicanálise.

Difícil não lembrar da provocação winnicottiana de que Freud teria “fugido para a saúde”, isto é, evitado seus conflitos psíquicos através de uma fuga para uma sanidade exacerbada, erigida como defesa – posição que casa muito bem com a argumentação de Luiza.

Difícil não pensar, também em Ferenczi, especialmente ao ler o conto que mistura trechos reais das cartas entre ele e Freud com passagens inventadas por Luiza. Texto onde Freud aparece numa antítese não exatamente ‘elogiável’ em relação aos seus pacientes e ao próprio adoecer humano.

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