Singularidade & internet

Singular é aquilo que é único, pessoal. Num certo sentido, é o espontâneo, o próprio. Não precisa ser algo ‘diferentão’. Basta que eu sinta que aquilo é meu, decorre de mim, não é uma resposta à nada. As vezes, aquilo que é “nosso” é também algo que pertence a muita gente. Mas o movimento que o iniciou, em nós, partiu da gente mesmo. Não é uma imitação. Então, segue sendo algo próprio, singular, mesmo que comum.

Para algumas pessoas é difícil identificar as coisas que são ‘próprias’, que são singulares, seja por hábitos gregários, seja por falta de incentivo ou exemplo. Acontece também que, por falta de maturidade emocional, não aceitemos muito bem nossas singularidades (que seguem acontecendo, mas que nós identificamos como “problemas”, coisas ruins ou vergonhosas, a serem evitadas).

Não sei se aceitar nossas singularidades é algo “necessário”, ou algo que se justifica historicamente, numa escala evolutiva, etc, mas sei que aceitar o que é nosso costuma ser mais leve.

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Esses dias conversava com um paciente sobre a internet, onde, se por um lado encontramos de tudo, por outro isso nos priva justamente de colocarmos a nossa medida nas coisas, metermos a nossa colher.

Como se a internet fosse ao mesmo tempo um imenso atalho poupando o esforço pessoal, e uma nova forma de opressão, que nos desincentiva ao esforço pessoal.

Porque, paradoxalmente, o esforço pessoal é, sim, um esforço, mas é também algo pessoal.

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Um exemplinho bobo seria algo como: vou fazer o resumo de um livro, mas o resumo já está pronto, na internet. Acesso o resumo pronto, mas percebo imediatamente que não tenho com ele a mesma relação de intimidade que eu teria com o meu resumo, aquele que teria feito.

Fazer o resumo implica em ler o livro inteiro, o que é trabalhoso. Mas, por outro lado, ler o livro inteiro garante que cada palavra que eu acrescentar ao meu resumo encontrará ressonâncias na leitura que eu já fiz. O contexto do meu resumo é a minha leitura. O contexto do resumo baixado é… nada.

Assim, parece que dar-me ao trabalho de fazer algumas coisas pode ser recompensador. De qualquer forma, produz resultados que não podem ser alcançados por outras vias (ao menos não em termos da minha relação com o meu resumo. O resumo “em si” pode ser igual a outros).

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Por essa via, acabo pensando que a internet, apesar de facilitar nossa vida – ou melhor, justamente por isso – funciona como um grande desincentivo à singularidade, à pessoalização. Nem é que os interesses que jogo na rede não sejam meus. É que, ao serem atendidos assim, tão rapidamente, eu mal tenho tempo de os desenvolver.

Meus interesses são atendidos instantaneamente, e cessam. E o que é pior: eles nem chegam a se enredar com minhas outras capacidades e demandas. Nem chegam a me incentivar a escrever com mais clareza, por exemplo, ao fazer o meu resumo. Não me ensinam a ter paciência, etc.

Constato, enfim, que talvez seja mais negócio dar um tempo na internet, procurar outras coisas, ter um pouco de trabalho. Paradoxalmente, acho que assim estarei ganhando mais tempo, me enriquecendo mais, interiormente.

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De que adianta uma biblioteca infinita no google, se eu não leio nem um décimo desses infinitos livros? Será que a falta de pessoalidade não está nos afastando dessas riquezas internéticas por uma boa razão – isto é, porque nós não estamos ali? Porque não conseguimos inserir nelas nossa singularidade?

Se, como dizem, a viagem é tão importante quanto o destino, talvez devêssemos parar um pouco de olhar para os ‘destinos’ e começar a refletir sobre os ‘caminhos’. Sobretudo, sobre o nosso passo, o passo singular e único que só nós podemos dar.

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