Fernando Gabeira e o Brasil

Conhecer Gabeira foi uma surpresa pra mim. Eu conhecia um velhinho de fala mansa, defensor da maconha, deputado, pouco mais que isso. Ler “O que é isso, companheiro” foi surpreendente. Ali descobri um autor irrequieto, rápido. Sem enrolação, sem tempo a perder. Muito conteúdo, muita coisa acontecendo, pouca explicação. Enfim, um contraste total com o “bom velhinho”.

Avançando na leitura de seus outros livros (“Crepúsculo do Macho” e “Entradas e Bandeiras”, formando uma trilogia sobre o exílio e o retorno) percebo um Gabeira próximo a mim, guardadas as proporções: a irreverência, a busca incessante, a certeza de que certezas não importam, o amor ao sol e ao movimento.

Gabeira também se importa pelo social, pela transformação, no mundo e no homem. Isso o leva à política, à moral, à psicologia. Ao pensamento, à leitura. E, em equilíbrio e oscilação, ao presente, à presença sólida naquilo que “é”, ao “aqui e agora”. Aos sentimentos.

***

Isso o faz naturalmente um crítico de todo “deve ser”, de toda vida que se legitima demais num passado/futuro. Pois é em troca de um “deve ser” que nós abdicamos da sensação presente, abdicamos de sentir. Com o tempo, desaprendemos a sentir, desaprendemos a estar onde estamos. Vivemos apenas no passado/futuro: nos planos, nos remorsos.

Acho que foi por aí que ele cansou dos europeus. Eles devem ter parecido muito corretos, muito resolvidos, muito monótonos, solidamente assentados em seus “deve ser”. Também tive minha experiência fora, e também senti falta do Brasil. Da nossa malandragem.

(É claro que isso não é nem deve ser um absoluto. Podemos inserir um pouco de “deve ser” na nossa mistura… mas temos que pensar na nossa medida 😀 ).

***

Metade – metade? – das pessoas lá fora vive num ideal, embalados por algum “deve ser”, por algum sonho. Toda essa busca do “sucesso” que importamos sem perceber, por exemplo… que coisa chata… É como se a vida no presente estivesse sendo trocada aos poucos por uma série de “exercícios planificados”. Ando na rua e parece que todo mundo está numa academia, fazendo movimentos repetitivos, sem vontade.

Disciplina, empreender, feedback, network… o que isso tem a ver com a gente? O Brasil sempre foi outra coisa. O Brasil, o brasileiro, sempre teve preguiça, sempre soube ficar ali, com as suas coisas. O Brasil é uma espécie de anti-Europa, e isso é bom. Isso é nossa novidade, nossa particularidade.

É natural que justamente os intelectuais não percebam isso, eles que cresceram mamando nas tetas da cultura europeia. Gabeira é uma exceção, e por isso é importante para nós.

***

Temos uma cultura para ensinar ao mundo, como defende o sociólogo Roberto Gambini; uma cultura anti-capitalista por essência. O brasileiro é enraizado no presente, nas sensações do corpo, no prazer. Nós também cuidamos uns dos outros, nós nos tocamos, nós somos afetivos. Isso nos coloca nas antípodas da “cultura” americana/européia, mas como um valor, como algo positivo – não como se nos faltasse algo.

A mistura do índio com o africano, mais as diversas pitadas de cada cultura que nos compõe, deveriam ser reconhecidas como “patrimônio da humanidade” – e não jogados fora, como infelizmente acontece sempre.

Mas nossa política também vem importada, e não temos ainda uma forma de governo “nosso” (eu já dei o meu pitaco; seria o governo do bode expiatório). É quase natural que ela nos exclua naquilo que faz ativamente, e nos beneficie apenas nas suas ausências. Crescemos nas suas sombras.

***

Minha descrença na política vai tão longe que tenho pensado se nossa “civilidade preguiçosa” será suficiente para nos defender das mazelas do capitalismo hegemônico. Não em direção a um socialismo qualquer, mas em direção a uma experiência que não precisa estar centrada na economia… que se dispersa em outros valores também.

Talvez o Brasil não tenha cultura (européia/americana) suficiente para ser rico, isto é, para vestir a camiseta de “produtivo”, abandonando a sensação e o presente em prol de um passado/futuro, mas e se isso for nosso diferencial, nossa contribuição ao mundo? Penso que era só a nossa política roubar menos, que poderíamos nos arranjar entre nós, na pobreza mesmo, sem indignidade.

Mas isso já são outros assuntos. Fica a sugestão para leitura desse autor por quem ando apaixonado ultimamente. Um autor que não nos deixa incólumes.

2 Respostas para “Fernando Gabeira e o Brasil

  1. O paraíso estava pronto, mas quisemos
    destrui-lo com ordem e progresso. E o que mais?
    Continuamos a fazê-lo
    Com noções alienadas de produtividade.
    Em nós, a exuberância é dada –
    sem percebê-lo, nos desfazemos
    de nosso melhor em troca de um espelho
    que não mostra nossa alma –
    pois já não a temos mais…

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s