O problema da “realidade” em Freud e Winnicott

Richard Theisen Simanke

Num belíssimo e obrigatório livro sobre o conceito de “psicose” em Freud (“A formação da teoria freudiana das psicoses”, Ed. Loyola, 2009), Richard Simanke investiga a fundo o desenvolvimento de cada um dos principais conceitos da psicanálise em sua origem.

Com relação aos entrelaçamentos entre realidade & desejo, Simanke observa que

“se a realidade é o resultado de uma construção em parte subjetiva, é possível entender a realização do desejo como a construção de uma realidade (psíquica) em que o desejo apareça como satisfeito. Mas, se toda percepção da realidade está assim condicionada, esta última pode ser entendida como o conjunto de representações em que o desejo busca satisfação. […] É preciso distinguir, portanto, a realidade enquanto autônoma da realidade enquanto capturada na maquinaria subjetiva e no circuito do desejo” (Simanke, op. cit, pg 91)

O que me chamou a atenção nesse trecho é que, em Freud, nossa relação com a realidade seria sempre e apenas mediada pelo desejo. É o desejo também que, em sua versão frustrada (frustração = desejo não atendido), permite que exista algum tipo de ajuste, um “aprendizado” do aparelho psíquico em sua relação com o real.

Se a percepção do real frustra a realização do desejo, entendida enquanto causa primeira do funcionamento psíquico, então instaura-se um “princípio da realidade” que consiste justamente numa busca cada vez mais indireta da realização do desejo, incluindo-se aí ,então, os “incontornáveis contornos” do real.

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Se a frustração ocupa esse papel central de ‘incentivar’, por assim dizer, o desenvolvimento de nossa relação com a realidade, chama a atenção que o conceito não tenha recebido em Freud uma atenção proporcional à centralidade de seu papel.

Freud parece ter se dedicado mais ao desejo enquanto motor da psique, e menos ao que nos permite suportar a frustração. Tudo se passa como se, para Freud, a frustração fosse uma questão moral: se você for sadio, não neurótico, você suportará a frustração. Há algo de “heróico” nessa suposição, que elude justamente o papel do “outro” enquanto auxiliar nesse processo.

Como sabemos, a importância do “outro” na estruturação da psique foi bastante desenvolvida pelos pós-freudianos, o que acabou por alterar a maneira como se entende a relação entre desejo e real.

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Winnicott parte da observação dos bebês com suas mães, e chega à uma proposição aparentemente paradoxal, mas profundamente freudiana: a saúde mental do bebê, no início da vida, estaria diretamente relacionada a sua não percepção da realidade como tal.

Em outras palavras, um bebê ‘suficientemente’ bem cuidado é aquele que não precisou dar atenção ao real cedo demais. Que pode, em consequência, entregar-se aos seus processos de desenvolvimento sem distrações, sem “princípio de realidade” ou, idealmente, sem nem mesmo perceber os pais ou o mundo como entidades separadas.

O bebê winnicottiano saudável inicia a vida psíquica numa indiferenciação entre interno e externo, eu e não-eu, desejo e realidade, estado que Winnicott batizou de “onipotência”.

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Essa ‘onipotência’, ilusória para nós, adultos, é para a criança um fato, uma experiência[1]. Ela está na base justamente de sua capacidade de se relacionar com o real – que virá sempre, para Winnicott, depois de consolidada essa ‘onipotência’.

Vale dizer, a experiência de ter se acreditado ‘onipotente’ é justamente o que contrabalançará a frustração da criança com o real. Sempre que a realidade se mostrar frustrante demais, a criança retornará à onipotência, seja na fantasia, no sonho ou no inconsciente.

A onipotência experimentada – isto é, vivida de fato, e não apenas imaginada ou desejada – será o contrapeso, o remédio que permitirá à criança ampliar cada vez mais sua capacidade de se frustrar na medida mesmo em que aprende a se relacionar com o real.

Há aí, então, um desenvolvimento, um amadurecimento psicológico em nossa relação com o real, que não se define apenas em termos do mundo interno (eu e meus desejos, percepções e frustrações), mas envolve necessariamente o “outro”, a qualidade de seu cuidado e apoio.

Em Winnicott há também uma centralidade maior nos processos de acolhimento, tanto do desejo quanto da frustração. Contrastando com a posição freudiana, pode-se dizer que o desejo perde um pouco de sua sua centralidade, que passa a ser ‘dividida’ com os processos de acolhimento. Tanto que os conflitos psicológicos não dependem mais, apenas, de nossos desejos, mas fundamentalmente da capacidade de acolhimento que dispomos (ou encontramos disponível na infância) para eles.

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A proposição de que há um desenvolvimento em nossa relação com o real não quer dizer que nós nos aproximamos paulatinamente do real, ou que tendemos a perceber melhor o real conforme “amadurecemos”. Não se trata de uma concepção “realista”, que igualaria uma percepção ingênua do real ao final de um desenvolvimento suposto saudável.

A ideia winnicottiana liga-se, antes, à inspiração freudiana de que nossa relação com o real é sempre mediada pela subjetividade.

O que Winnicott acrescenta nisso é que a maneira como nós nos relacionamos com nossa próprias frustrações é que amadurece e se desenvolve. E isso nos permite ter uma relação com o real menos determinada por essas frustrações.

Ao menos na saúde.

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Notas:

[1] Escrevi mais sobre o assunto em diversos posts, como este e este.

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